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Cap 1 – De Volta ao Primeiro Olhar…

Well I’m not sure of my priorities   

When I’ve lost sight of whoever I’m meant to be

like holy water washing over me

You make it real for me

Ele acordou sentindo algo diferente no ar. Uma sensação como a de quando se come brigadeiro com morangos. Seus lábios arriscavam um sorriso espontâneo enquanto seus olhos formavam ruguinhas de felicidade. Virou-se,  correu os olhos no calendário e descobriu o que a memória do seu corpo já lembrava desde a primeira hora do dia……

how-to-pick-the-right-bar-for-a-business-meetingEra uma noite fria de julho, não tão fria como aquelas de bater o queixo, mas tinha uma brisa que arrepiava os pelos. Mas não era uma noite qualquer. Era o 23. O dia que mudaria a história daquele jovem pra sempre [mas ele ainda não sabia disso].

Ele chegou despretensiosamente. E assim ficaria se não fosse o barulho do seu coração a denunciá-lo em público de que algo estava acontecendo na sua alma. Ao subir a escala, como um imã, seus olhos desviaram de todas as pessoas – e havia muitas naquela noite – sendo atraídos para um único olhar escondido na outra ponta da mesa. Sentia gotículas de um suor frio escorrendo por dentro de sua camisa jeans.  Nessa altura já não conseguia controlar o rubor no seu rosto. Ao menos isso poderia culpar o frio!

Sentia um constrangimento gostoso. Uma timidez vestida de autoconfiança, por isso, preferiu sentar longe daquele olhar que o desconcertava. Buscou a proteção de quem já conhecia e engatou uma conversa alheia para controlar seus batimentos. Enquanto seus lábios diziam coisas que ele mesmo não ouvia… sua atenção cruzava aquela mesa, pescando discretamente os movimentos que ali aconteciam.

stenaxorimenos-sto-barFoi então que os céus se abriram… e um golpe do destino trouxe daquela distância para bem perto. Puxou uma cadeira e sentou-se quase do lado daquele jovem, entrando naquela conversa que nessa altura já não fazia mais sentido…. todos os sentidos de ambos estavam reféns daquele momento, daquele encontro, daquela presença…

Foi então que rendeu-se. Baixou suas defesas e entregou-se a algo que ele ainda não sabia o que era, mas que era bom. Não. Era mais que bom. Era novo, era inédito, era mágico, era espontâneo…. natural. Era um encontro de almas. Era 23 de julho e isso bastava…..

[ to be continued…]

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I MISS MY BIGGEST HEART by Emily Dickinson

“…ele está aqui, vivo, vívido e inesquecível para sempre,

irrequieto demais para ficar deitado por muito tempo.”

(Stewart Stern)

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Abre com cuidado,

Nesta tarde, todo meu pensamento está voltado para ti, toda a minha prece é por ti. Penso que assim como estamos unidos pelo coração, poderíamos passear de mãos dadas, como crianças, pelo bosque e esquecer todos esses anos e essas dolorosas preocupações, e voltar a ser crianças – eu gostaria que fosse assim. E quando olho em torno e me vejo sozinho, suspiro por ti; pequeno suspiro, inútil suspiro que não vai trazer você de volta.

Preciso de ti mais e mais, e o mundo fica ainda maior, e os entes queridos se tornam menos e menos numerosos, a cada dia de tua ausência – tenho saudade do meu maior amor; meu coração vagueia e chama por ti.

Perdoa-me cada palavra que digo, meu coração só tem lugar para ti, só tu existe em meus pensamentos, e, no entanto, quando procuro algo para lhe dizer, faltam-me palavras. Se estivesses aqui. Ah se estivesses, não precisaríamos falar nada, nossos olhos falariam por nós, aos murmúrios, e tua mão na minha, não precisaríamos de palavras – procuro trazer-te para perto.

Até chegar o grande dia, minha impaciência há de alimentar mais e mais, pois só chorei por ti; agora, começo a esperar por ti.

Eu queria te mandar uma coisa que te agradasse muito e pensei muito até ver minhas pequenas violetas: elas imploraram para ir, e, por tanto, aí estão. São pequenas e receio que agora não tenham perfume, porém te falarão de afetos ardentes e de algo fiel que nunca adormece – coloque-as sob seu travesseiro, para que te façam sonhar com céus azuis, com o lar, com a terra abençoada.

Agora, adeus. A mãe te manda lembranças e eu acrescento um beijo, timidamente, se estás com alguém. Não deixes ninguém ver, está bem?

———-

Eu peço licença à Emily Dickinson e empresto esta carta que ela escreveu em 1852. Palavras que eu gostaria de empenhá-las hoje, 163 anos depois, dão sentido ao meu presente espírito. Não sei qual efeito provocou em Susie, a quem Emily destinava todo seu amor. Mas posso compreender o que Dickinson sentia ao escrevê-la. Chamada de “A Grande Reclusa”, em vez de personalidade solitária, Emily, talvez, estivesse mais para incompreendida. Obrigado cara Emily, falastes pelos meus próprios afetos. //

>> Retirado do livro “Cartas Extraordinárias”, Cia das Letras.

Não somos o que sentimos, mas podemos ser

tumblr_nnkppqDODQ1sszcpso7_1280Ultimamente eu ouvi várias vezes a expressão “o que somos, a não ser aquilo que sentimos”… Soava nos meus ouvidos com tanta convicção que por pouco quase me deixei levar por essa “filosofia de vida”.

Certamente ela explica muita coisa. Mas diante de tanta dor, sofrimento e tristeza eu pude olhar para mim mesmo e, simplesmente, eu não poderia aceitar SER tudo aquilo que estava sentindo!

Então me lembrei de um versículo da bíblia, em Jeremias 17:9 “Quem pode entender o coração humano? Não há nada que engane tanto quanto ele”. Em outra tradução esse mesmo versículo fala que “O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa. Quem o conhecerá?”.

Se há mais de dois mil anos os homens questionavam o coração como uma “terra estranha”, como posso, então, entregar tudo o que sou ao que sinto? É fato que em um único dia podemos sentir tantas coisas diferentes, contraditórias e confusas. Emoções que afetam o humor, o comportamento, as tomadas de decisão.

Todo mundo dentro de si carrega, necessariamente, as quatro emoções inatas do ser humano: felicidade, tristeza, raiva e medo… Somos a soma, a mistura, a fusão e sinergia desses quatro pilares…. Ora um fica mais evidente, ora outro… e isso é o que nos move para a auto-preservação e multiplicação, mas não o que nos define!

Realmente definir o nosso ser apenas pelos sentimentos é limitar toda a complexidade que é o ser humano. CE2vlKfWgAAcD3-Não consigo acreditar que somos o que sentimos. Mas acredito que podemos ser, sim, o que sentimos. Da mesma forma que podemos ser o que pensamos. Na verdade podemos ser o que quisermos ser. Nos tornamos aquilo em que acreditamos e de certa forma isso passa a fazer sentido pra quem acredita.

Somos um “tornar-se”… a vida é um gerúndio de crescimento, aprendizagem, mudança…. “Nada é mais simples, não há outra forma, nada de perde, tudo se transforma” (J.D.)

Há momentos em que é necessário contrariar os sentimentos para seguir em frente. Eles vão continuar lá, gritando….. Mas é preciso se apoiar na fé naquilo em que se acredita.

Afinal, somos as nossas próprias escolhas e todas as consequencias advindas… Mas não só isso, somos também as escolhas que ainda iremos fazer!

“É hora de se guardar, um segredo no coração

Licença sofrética

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Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na poesia. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura. Ou seja, é uma permissão para matar a norma culta, transgredir a gramática e usar de total liberdade para se expressar com o uso das palavras.

É como se fosse um direito que o escritor tem para, deliberadamente, manipular as palavras de acordo com as próprias intenções.

É uma licença para errar, porém, mais que isso, é uma proteção para não ser julgado pelo que se irá escrever. É um álibi para ser quem é e expressar o que deseja, sem se preocupar em observar as normas e convenções.

hqdefault   Fato é que na literatura até para errar criaram um protocolo, deram um nome, uma definição. Assim, também tentam enquadrar sentimentos e emoções. A expressão do que se sente já não pode ser espontânea e natural. Como se para sofrer fosse preciso de uma Licença que permita o direito a contrariar a felicidade normativa.

Kate Nash, quando canta “Nicest Thing”, simplesmente dá voz e vez aos seus mais primitivos e sinceros sentimentos, sonhos e desejos. Sem pedir licença, seu coração grita suas dores, expectativas e frustrações em um sofrimento genuíno.

Não se pode pedir licença para sentir e para sofrer.

Nicest Thing (Kate Nash)

Tudo que eu sei é que você é tão adorável

Você é a coisa mais adorável que já vi

Eu queria que nós levássemos isso adiante

Ver se nós poderíamos ser algo

Eu gostaria de ser a sua garota favorita

Eu gostaria que você pensasse que eu fosse a razão de você estar no mundo

Eu gostaria que meu sorriso fosse o seu tipo favorito de sorriso

Eu gostaria que o jeito como eu me visto fosse o seu tipo favorito de estilo

Eu gostaria que você não conseguisse me entender

Mas você sempre quisesse saber o que eu tinha

Eu gostaria que você segurasse a minha mão quando eu estivesse chateada

Eu gostaria que você nunca esquecesse o meu olhar quando nós nos conhecemos

Eu gostaria de ter uma mancha na pele que você amasse secretamente

Porque estaria em um lugar um pouco escondido que ninguém mais poderia ver

Basicamente, eu gostaria que você me amasse

Eu gostaria que você precisasse de mim

Eu gostaria que você soubesse que quando eu dissesse duas colheres de açúcar, na verdade eu queria dizer três

Eu gostaria que sem mim o seu coração se partisse

Sim, eu gostaria que sem mim você

Passasse o resto de suas noites acordado

Eu gostaria que sem mim você não pudesse comer

Sim, eu gostaria de ser a última coisa em sua mente antes de dormir

Olha, tudo que eu sei é que

Você é a coisa mais adorável que eu já vi

E eu queria ver se nós pudéssemos ser algo

Sim, eu queria ver se nós pudéssemos ser algo

Meu doce amor

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Meu doce amor,

Ao repetir essa frase “meu doce amor”, me dou conta de que é impossível pronunciá-la sem sorrir ….. a mistura de “doce” com “amor” resulta em um tom de voz sereno e gentil. Assim como você é. Assim como tudo em você é. Isso me faz querer compor uma música de uma frase só….

Me realizo neste pronome onde você, primeira pessoa tão singular, se faz minha com apenas três letras. Depois traduzo todos os seus predicados em uma única palavra. Palavra sinestésica que aguça os sentidos, dilata as pupilas e faz querer lamber os dedos de prazer. Então vem você, o sujeito da oração. Oração que eu faço todos os dias para que este amor nunca falte e jamais falhe.

Ainda sinto nos meus lábios, o gosto do seu amor.

[…]

Minha única possibilidade

olhos_007Sem dúvidas foi o brilho. Da luz que emanava daqueles grandes olhos que atravessavam a longa mesa e corria em minha direção me tomando de claridade. Uma luz que dissipava toda a escuridão de dentro de mim e me mostrava coisas lindas que eu mesmo desconhecia.

Aqueles olhos me olharam como nenhum outro jamais me olhou. E como jamais serei olhado novamente. Pois daquele olhar só existe um, o seu.

Fiz então dos seus olhos a minha lanterna. Para me guiar por lugares onde jamais tinha visitado. Descia cada vez mais fundo por sentimentos que me traziam segurança, proteção e conforto.

No caminho fui envolvido por uma doçura de arrebatar o coração para outro plano. Rompendo a gravidade até descolar meus pés do chão. Nos seus braços, senti o aconchego de colo e o fôlego de vida.

Foi a partir daquele olhar em que eu passei a descobrir a verdadeira vida. Aquela que nasce no e do encontro. Um encontro de almas. Um encontro marcado.

Em você eu descobri a mim mesmo. Com você eu aprendi a conjugar a primeira pessoa do plural. Mas foi por você que eu fiz do voltar minha maneira de não ir.

Tudo para que aquele olhar continuasse a beijar meus olhos, enchendo de borboletas a minha barriga e de sinos os meus ouvidos.

Daquele olhar ficaram três coisas: a surpresa do entregar-se, a sinergia do encontro, e a minha única possibilidade de poder me ver refletido nos seus olhos novamente.

P.S: desafio aceito! Desta mesma fonte também jorra outras inspirações além de dor e sofrimento.

Desculpe o transtorno. Estamos em obras!

188824_EM-OBRASSe existe uma coisa que me irrita é ter que mudar o caminho que eu faço para chegar em casa. Todos os dias eu sigo o mesmo percurso. Eu sei onde estou e sei onde quero chegar. Pra quê, meu Deus, vou ficar pensando em alterar a rota? Eu sei que aquele caminho é o mais eficiente. Como eu sei disso? Oras, porque todos os dias eu faço o mesmo trajeto. Não vou investir minha criatividade pensando em variações de ruas para simplesmente ir para  casa, correndo o risco de me perder ou gastar mais tempo e gasolina!

Mas eis que resolvem fazer uma obra de infraestrutura exatamente na rua onde eu deveria passar todos os dias. Máquinas na pista, barulho, sujeira, poeira…. Um caos, bem ali, no meu caminho. Um transtorno apocalíptico de uma obra infindável sustentada por uma plaquinha presa a um cavalete justificando aquele inferno: “Desculpe o Transtorno. Estamos em obras”.

A justificativa é sempre a mesma, “para melhor atendê-los”. Agora me diga, cadê a plaquinha que mostra uma rota alternativa? Não tem! Sabe por quê? Porque é sempre assim, quando se inicia uma obra, tudo fica bagunçado! É necessário se adaptar ao novo contexto momentâneo e, sem garantias de que depois que terminar tudo voltará a ser como antes.

Ou seja, lá vou eu ter que me adaptar àquela obra no meio do caminho. Para quem não gosta de procurar novas rotas é um parto se ver obrigado a pegar “atalhos”. Até eu escolher e me acostumar com outro trajeto para chegar em casa, certamente irei parar em muitas ruas “sem saída”, quando não me perder e ficar dando voltas em círculos.

Enfim…. Assim como tudo na vida, as vezes nós mesmos somos surpreendidos por uma obra interior. Sentimos a 16-500x500britadeira nos sentimentos e o caos tomando conta das emoções. Para nós mesmos e para as pessoas que estão no entorno só nos resta dizer “Desculpe o Transtorno: Estou em obras”, acreditando – bem no fundo – que um dia essa obra será concluída e o resultado dela será “Para melhor atendê-los”. (a mim mesmo e aos outros). Não conseguimos escapar da bagunça interior e dos impactos dessa obra!

Enquanto isso, cabe a nós  criarmos nossos caminhos alternativos. Algumas obras são necessárias, outras inevitáveis. O transtorno é certo, a mudança nem tanto. Mas sobre o que fazer diante dessas obras que surgem no caminho das nossas vidas? Drummond arrisca uma sugestão: “Nunca me esquecerei desse acontecimento, na vida de minhas retinas tão fatigadas.  Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho”

Time do Fix!

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Fantasia

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Ele calcava os pés nos chão para passar despercebido entre os demais. Mas sabia que sua mente e seu coração flutuavam. Era como se sua cabeça fosse um balão de gás, suspenso no mundo da fantasia.

E quando ninguém estava olhando, ele discretamente deslocava o calcanhar e sonhava acordado. Vislumbrava momentos que não aconteceram. Pessoas que não estavam lá.

Mas eram reais.

Tão reais que suas fantasias lhe roubavam sorrisos e provocaram suspiros compulsivamente. Convencido de que seria surpreendido pelas próprias fantasias alimentava o quanto podia o desejo de ser reencontrado.

….

Então, voltava a tocar o solo. A realidade não tinha todas as cores, nem lhe fazia borbulhar a barriga. Não havia ninguém lá. Nem esperança, nem surpresa.

Ninguém o estaria esperando na porta, nem iria cruzar-lhe o caminho subitamente. Mas ele ousava contrariar a realidade e, com todas as forças, suspendia-se do chão novamente. O alívio momentâneo daquela verdade que ainda não tinha acontecido era suficiente para lhe acalmar o coração.

Naquele lugar, as cores, o brilho e a música davam conta dos desejos mais belos e puros. Lá, não havia assento para culpas e nem culpados. Mesmo assim, a gravidade insistia em lhe puxa para baixo.

Outra vez olhava e não via ninguém. Encontrava o vazio e isso era desesperador…..

….

Lembrou-se de quando estava à beira do abismo. Aquele empurrão dado, era o da liberdade, mas não havia reverberado o efeito esperado. Era para ser um impulso da salvação! Aquele que faz brotar asas, que ensina a voar, que desperta o instinto de sobrevivência quando se vê à beira da morte.

Então ele ficou esperando….

Esperando que do vácuo ressurgisse rompendo a gravidade, envolvido no vigor da liberdade, na própria força interior.  Baixou os olhos para seus pés, via as pontas dos dedos tocando a extremidade do penhasco. Olhava para baixo, esperando algum movimento, algum vento balançar seus cabelos.

E, nada.

O nada era o solo que agarrava seus pés drenando suas fantasias tão pueris. Por isso ele preferia o ar. No ar é onde as coisas fazem mais sentido, não precisa de raiz quem pode voar.

Era tão bom sentir no rosto as cócegas provocadas por aquele sorriso, ou experimentar a leveza de ser arrebatados pelas doces memórias de outrora.

Por isso, quando queria um carinho na alma, fantasiava.

Repetia acordado o mesmo sonho, de que a qualquer momento seria reencontrado, surpreendido. Saía todos os dias acreditando que seria naquele dia. Que a qualquer momento poderia acontecer.

Vivia um gerúndio absoluto do movimento de tocar e se desprender do solo.

Ele só queria que fosse verdade.

Que a verdade fosse real.

E que o real, fosse… que aquele empurrão não tivesse sido o da separação.

“O boneco de neve” nos relacionamentos |Frozen e Psicologia

sad-snowman-by-mgshelton-800x586Sabia que um “boneco de neve” pode salvar um relacionamento? Depois de ler este texto, certamente você entenderá a importância, e por quê não, necessidade de um boneco de neve entre duas pessoas!  Principalmente se você se sente isolado… Refém de suas feridas não curadas… Distante dos outros e de si mesmo….

Se você tem um “amigo de um primo nessa situação” talvez seja a hora de você, quer dizer, dele conhecer a história da coadjuvante Anna, irmã da protagonista Elsa. Sim estou falando da animação Frozen (2013) e o quanto ela pode ensinar sobre a psicologia dos relacionamentos. Não! Esse assunto não é para crianças, embora venha de uma a “moral desta história”….

A primeira vez que eu vi o filme Frozen foi a convite de uma criança de 5 anos. O filme já havia começado e aquele pequeno já tinha as falas decoradas para me atualizar. Como bom jornalista, fui investigar o que naquela história causava tanta excitação nas crianças [e prejuízos para os pais]. Nem meu sobrinho escapou da versão congelada do “Mito do Rei Midas”.

Não vou, aqui, fazer apologia à Disney, do contrário, até me assusta a letra de “Livre Estou” (Let It Go), cantada repetidamente por milhares de crianças.

O filme foca totalmente nas desventuras de Elsa, que “amaldiçoada” congela tudo o que toca. Então, se isola da família e amigos em um quarto de onde vê o mundo através de uma janela. Sua angustia é tamanha que ela não sai e nem deixa a irmã entrar. Elsa decide não ter contato com seus problemas e também não deixa que os outros se aproximem dos conteúdos dela.

Recentemente algo naquele filme me chamou atenção. Mais especificamente a cena em que Anna, a caçula, canta “Você Quer Brincar na Neve?” (Do you want to built a snowman?).

Veja a Cena:

É nesse momento que a pureza da infância quebra as barreiras emocionais e rompe com as defesas da irmã mais velha. Movida pelo amor e saudade da irmã, Anna bate na porta do quarto de Elsa e a convida para “Construir um Boneco de Neve”. Repare que ela não estendeu um ombro para irmã chorar, nem lhe ofereceu um remédio ou livro de autoajuda. Para uma criança a maior cura é brincar! Brincando se esquece dos problemas, interage com o mundo da fantasia. Brincar é o melhor convite de uma criança, é onde ela pode se expressar livremente. Uma abordagem simples e altamente estratégica. [Os adultos, nesse caso, quase sempre optam em focar no problema e no sofrimento[. Ignorada, Anna começa a relembrar a irmã de coisas boas, e finaliza da melhor maneira possível: se colocando à disposição de Elsa, respeitando o tempo dela e mais, o jeito dela…. Nesse momento, “já não precisa – necessariamente – fazer um boneco de neve”.

Diante da negativa, em vez de frustrar-se a caçula contraria “seus próprios direitos” e insiste mais uma vez em convencer a irmã a abrir a porta. Novamente recebe em troca o silêncio. No entanto, aquela porta na cara não foi suficiente para suplantar o amor de Anna e, pela terceira vez ela insiste com Elsa. Muda os argumentos e num ápice de maturidade começa a compartilhar do próprio sofrimento causado pela ausência da irmã. Dizendo como a ausência dela é sentida. Em sua última frase, Anna – mais uma vez – propõe “construir um boneco de neve?”

Para as “Elsa’s”, as vezes tudo o que se precisa é de um convite para “brincar”. O boneco de neve representava para aquele relacionamento um objeto de vínculo de boas lembranças da infância. Para construir um boneco de neve é preciso ir para fora, expor-se, entrar em contato com a neve, com o mundo e com os próprios conteúdos [leia-se emoções, memórias, etc]. É preciso abrir-se para o outro. Contrariar os próprios sentimentos e sofrimentos e permitir a si mesmo a uma nova experiência.

Para as “Anna’s”, é necessário tirar do amor a esperança e a perseverança. É aceitar as portas na cara e engolir o silêncio. É ser ignorado e insistir, não por orgulho, mas por convicção. É nunca deixar de convidar para brincar e juntos “construir um boneco de neve”.

Confira a tradução de “Você quer brincar na neve?” (Do you want to build a snowman?)

Anna (5 anos) – Você quer construir um Boneco de Neve?
Venha, vamos brincar
Eu nunca mais te vi
Saia do quarto,
É como se você estivesse ido embora.
Nós costumávamos ser melhores amigas
E agora não somos mais
Eu gostaria que me dissesse por quê?
Você quer construir um boneco de neve?
Não precisa ser “um boneco de neve”
Ok, tchau
Anna (9 anos) – Você quer construir um Boneco de Neve?
Ou andar de bicicleta pelos corredores?
Eu acho que está mais do que na hora de você ter companhia
Eu já comecei a falar com os quadros na parede
Fica muito solitário
Todas estas salas vazias
Apenas observando as horas passando
Anna (13 anos) – Elsa? Por favor, eu sei que você está ai
As pessoas estão perguntando onde você está
Eles dizem “tenha coragem”
E eu estou tentando
Estou bem aqui para você
Apenas me deixe entrar
Nós só temos uma a outra
É só você e eu
O que vamos fazer?
Você quer construir um boneco de neve?

GIKOVATE: O AMOR QUE SE VAI

Amar-é-Puuung-1O psicoterapeuta e escritor Flávio Gikovate define o amor como: “um sentimento por alguém muito específico, que provoca a sensação de paz, de aconchego e harmonia”. Psicologicamente, o amor reflete a primeira experiência do ser humano: o prazer absoluto de estar no útero materno. Por isso, Gikovate diz que “o Amor é um remédio para o desamparo do nascimento”. Para ser amor é preciso que o sentimento seja, necessariamente, interpessoal (verbo transitivo) e, também, seja um prazer negativo, no sentido que ele vem substituir a perda do primeiro prazer (quando saímos do útero perfeito e temos contato com o mundo imperfeito).

Assim, Gikovate – contrariando o senso comum romântico – afirma que “não se faz amor, se sente amor”. Completamente diferente do sexo, que segundo o autor, o fenômeno da sexualidade funciona de forma pessoal (prazer autoerótico), é uma excitação e não depende de desconforto.

Fato é que amor adulto, tem muitas características infantis. O outro entra no lugar da mãe, substituindo o objeto de prazer que irá receber todo o investimento de amor.

No século V a.C., Platão afirmava que o Amor deriva de Admiração. A escolha desse objeto que vai substituir a mãe será feita, então, por admiração. Essa é a explicação para a formação dos casais. A questão é que o critério de admiração pode se modificar com o passar do tempo.

Essa, a admiração, é uma das variáveis que pode levar o fenômeno amoroso ao colapso da relação. Quanto mais baixaamar-é-ilustrações-puuung-34 for a autoestima, maior a procura pela admiração ao perfil oposto, justificando a máxima “os opostos se atraem”. O tempo e a aproximação podem provocar a perda, ou mesmo o crescimento, da admiração. É um processo constante de reavaliação da admiração ao outro. Isso depende das escolhas e das mudanças que ocorrem individualmente e, que afetam diretamente o relacionamento. Em outras palavras, quando se perde admiração, perde-se o amor. Logo, o maior problema é a perda da admiração.

O sentimento amoroso vai se desencantar pelas mesmas razões que o fez encantar. O fim do amor não é, imediatamente,  o fim do relacionamento. Muitas pessoas ficam juntas mesmo depois que a vida emocional está empobrecida. Viver junto, não significa viver bem. Há os que continuam com um objetivo de forçar a mudança do outro, em vez de usar essa força para mudar a si mesmo. “Por exemplo: em vez de eu forçar o outro a deixar de ser egoísta, eu devo trabalhar em mim para deixar de ser generoso. Assim, ou a pessoa sai da relação em busca de alguém generoso, ou ela aprender a ser generosa. Toda a energia deveria ser gasta em si mesmo e não em reformar o outro. É um esforço inútil”.

Para Gikovate a parte mais generosa da relação é quem ativa a ruptura. Isso porque a parte mais egoísta, ainda que em um possível sofrimento, não suporta ceder. Assim, espera-se uma hora oportuna para a separação.

amar-é-ilustrações-puuung-35As pessoas esperam separar sem ter que passar pelo buraco da solidão. A maior parte das pessoas lida muito mal com a solidão e, principalmente, com a dramática sensação de dor no momento da separação. Uma dor confundida, pois essa primeira não é a dor da solidão, é a dor aguda da ruptura. Da transição.

Se o relacionamento está desgastado, o outro não está preenchendo bem as expectativas, de maneira que já há a sensação de incompletude presente. Quando há uma ruptura é preciso fazer uma autocrítica e entender onde e como foram as falhas e as mudanças. Aprender a lidar melhor consigo mesmo.

O individualismo é uma coisa ótima e positiva, pois está ajudando as pessoas a dar menos ênfase ao amor infantil, de dependência. O individualismo atrai relações entre pessoas mais parecidas criando uma nova máxima “os semelhantes se aproximam”. O amor ganha conotação mais adulta, com aconchego intelectual, o que dá um viés mais sofisticado para a relação. O “Mais Amor” (termo cunhado por Gikovate como uma evolução das relações afetivas) é o que se aproxima da amizade, ou seja, a relação entre duas pessoas é baseada nas afinidades, respeitando a individualidade de cada um, tomando as duas partes como iguais e equilibradas em tudo.

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Fonte: Texto baseado na palestra O AMOR QUE SE VAI, de Flávio Gikovate, realizada pelo CPFL Cultura, 2009. (contém alterações deste autor/blog).

Link Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=JtDmoS7VAvY

Ilustrações: Puuung