Na vida não tem “meia-lua-pra-trás+B”

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Eu nunca tive um vídeo-game. Pasmem. Apesar de gostar bastante, me contentava em jogar nas férias, na casa de primos e amigos. Pelo menos me sobrou tempo para subir em árvores e montar Lego.

Mas eu me lembro de decorar os comandos para vencer nos jogos de luta, era preciso “apelar” para derrotar um opositor melhor que eu. Apelar significava morder os lábios e reproduzir espasmos com os dedos loucamente, sem pausa até o primeiro cair. De certa forma a gente tinha que usar a memória para guardar todos os comandos que produziam combos, liberavam poderes e faziam efeitos especiais. Era um tal de dois-pra-cima-um-pra-baixo+Y, ou então meia-lua-pra-trás+B e outras séries de combinações para encaixar o golpe.

Apelar não era a forma mais justa de se ganhar uma luta de vídeo-game, mas o que é justiça em um jogo onde o objetivo não é apenas derrotar o oponente, mas “finalizá-lo” de jeito.

Do lado de cá da tela, a vida não nos deixa “apelar”. Se parece mais com aqueles jogos de fase. O objetivo é passar de fase. Derrotar os chefões. Se livrar dos obstáculos. Tudo isso antes do Time Out. Afinal, se há alguma semelhança entre a vida e jogos de vídeo-game é o Game Over.

Fato é que tanto em um, quanto no outro, se não conseguimos “passar de fase”, seja por falta de habilidade, experiência, até mesmo inteligência (por que não?) é preciso voltar ao começo e fazer tudo novamente.

O lado bom de tudo isso é que a cada vez que voltamos ao início da fase, vamos avançando um pouco mais. Já sabemos onde estarão os obstáculos do caminho que já passamos. De certa forma, a repetição nos livra das surpresas. Já conhecemos o caminho. Gradativamente, vamos passando a fase com maior habilidade, mais rápido. Mesmo assim, qualquer movimento mais ousado, ou uma distração diante dos obstáculos (ou então as tartarugas, sim estou falando de Mário), pode ser fatal. E novamente teremos que voltar ao inicio da fase.

É um processo de aprendizagem. Enquanto não aprendemos como sobreviver nessa fase, não conseguimos seguir para a próxima. A vida, tanto no jogo, quanto fora dele se resume em chegar ao final e derrotar o chefão.

Voltar para o começo da fase não é necessariamente ruim. Já conhecemos o caminho até o ponto onde paramos e isso nos deixa mais confiante. E é essa confiança que nos move a avançar até o final. Voltar também nos permite fazer o caminho diferente. Repensar escolhas, explorar novas possibilidades, procurar “moedas” escondidas e até mesmo nos surpreender com alguma passagem secreta que não vimos na primeira vez.

Recomeçar o jogo pode ser interessante. Agradável. E até mesmo inédito. E o melhor, não é necessário apelar. Apenas curtir a fase. Até o próximo chefão.

Espera(nça)

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Quando eu era pequeno, aprendi que Esperança era o nome daquele grilo verde que aparecia do nada dentro de casa. Diferente de muitas pessoas, quando víamos um desses comemorávamos:  “olha a esperança”, apontava sem querer incomodar o inseto. Era como um sinal de sorte. Ali, parado. Imóvel.

Engraçado, porque pelo dicionário, esperança é “uma disposição de espírito que induz a esperar que uma coisa aconteça”. E era exatamente o que aquele grilo fazia: esperava. Pobre coitado, às margens da cadeia alimentar, presa universal. Imagino a angústia da frágil Esperança quando chega a noite e os predadores saem à caça.

Nessa hora, o esperar ganha outro sentido. A Esperança sabe da ameaça que a cerca. O medo invade aquele inseto, mas que curiosamente dentro dele, o que ele espera não é a própria morte. Do contrário, a esperança reside no desejo oculto e inconsciente de que por mais escura, longa e tenebrosa que seja aquela noite, em algum momento um raio de luz vai rasgar a escuridão, trazendo o dia e com ele uma nossa possibilidade de viver.

Certamente o grilo não tem domínio sobre seus predadores, muito menos sobre o dia ou a noite. Não cabe a ele decidir quando é hora de clarear. Mas sua esperança é um desejo ardente de que em algum momento a luz substitua as trevas. A disposição do espírito daquele pequeno inseto o induz a acreditar que ele não será tragado e que o medo e a morte, ainda que reais, são passageiros. Dentro dele existe uma fagulha que sustenta a crença de que é possível resistir, sobreviver e superar.

Então, quando amanhece, a Esperança segue ali, parada. Imóvel. Então, sim. Aquele inseto é um sinal de sorte. Da própria sorte. A prova de que a esperança funciona e, claro, é a última que morre.

A esperança não pode mudar nossa essência. Mas pode trazer uma nova visão de nós mesmos. Do quanto é possível acreditar que existe um amanhã melhor. De que a qualquer momento algum raio de luz vai invadir nossos medos, dissipar as angústias e trazer mais claridade sobre quem somos o que fizemos e o que podemos fazer. É na luz que podemos ver as coisas como realmente são. Que a esperança seja os olhos com os quais podemos enxergar o mundo.

Eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo

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Ouvir isso foi como aquele tapa na cara que traz de volta para a realidade. Mas que nem por isso é indolor. Doeu muito ouvir “eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo”. Foi a dor da libertação. Das algemas sendo arrancadas à força, levando junto parte de pele, carne e sangue.

É doloroso o fato do quanto se pode fazer mal a si mesmo e se envenenar aos poucos. Mas era chegada a hora de seguir a velha orientação de vôo:

“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma delas, coloque sobre o nariz e a boca e ajuste o elástico atrás da cabeça e respire normalmente. Coloque-a primeiramente em você e depois auxilie os outros, caso necessário”

A verdade é que o ar já estava rarefeito. A falta de oxigênio diminui a atividade cerebral. Mesmo que a máscara estivesse ao alcance das mãos, executar os procedimentos de preservação exigia muito. Exigia um fôlego de vida a mais. Exigia um golpe de amor próprio.

Foi então que esse golpe me atingiu em cheio. Veio de fora e entrou rasgando meus pulmões, soprando um novo ar.

Pode parecer um tanto egoísta pegar a primeira máscara para você mesmo e correr o risco de ver outras pessoas não conseguirem. Mas há um altruísmo embutido no fato de que não se pode ajudar o outro a respirar se você mesmo não tem oxigênio.

Eu era o cara da poltrona ao lado. Alguém precisou colocar em mim a máscara. Quanto mais tempo você passa sem oxigênio, maiores dificuldades terá em “respirar normalmente”.

Já era hora de voltar a respirar. Aos poucos o pulmão se adapta. Aos poucos você se adapta. Aos poucos você volta ao normal.

“Eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo”.

Já disse que foi libertador ouvir isso?

Calo Necessário

Os gemeos

Vamos falar sobre calos. Isso, aquela parte da pele que se tornou grossa e rígida. Uma protuberância feia e insensível. A dermatologia explica que eles são como uma resposta natural da pele a repetidos contatos, pressões e movimentos. Só não diz nada sobre para que servem os calos.

Eu tenho um desses no meu dedo maior, na mão esquerda, ele me acompanha desde que comecei a escrever. Sempre escrevi com muita força e pressionava lápis e caneta neste dedo, logo acima da unha, na primeira falange. Nunca gostei desse calo. Já tentei cortá-lo, mordê-lo….  Hoje eu já me acostumei com ele. Aperto, aperto e não sinto nada.

Eu já não escrevo tanto, troquei o lápis pelo teclado, e nem por isso o calo diminuiu. Ele continua ali. Esses dias eu fiquei olhando pra ele e percebi então, para que servem os calos.

Esse calo me conta uma história. Ele me lembra do tanto que já escrevi. Dos tempos de escola, de fichário, de copiar rápido a matéria para sobrar tempo para conversar com os colegas.

Esse mesmo calo, feio, duro, foi muito importante para que eu fosse a pessoa que sou hoje. Eu trabalho com a escrita. Então, ele protegeu meu dedo para que eu pudesse continuar escrevendo sem sentir a dor da caneta pressionando a pele. Foi então que eu passei a olhar para esse calo de uma maneira diferente. Ele nem é tão feio assim. Afinal, já faz parte de mim e me permite continuar a escrever, de uma maneira mais confortável, até.

Se olharmos para os calos como proteções necessárias, como um reflexo adaptativo, poderemos então, ser mais gratos ao sentir menos as mesmas dores.

Eu me lembro que no primário, meu dedo doía muito quando eu escrevia. Eu não podia simplesmente parar de escrever para evitar a dor. Então meu corpo criou essa barreira natural. Às vezes algumas dores esfolam o coração e também, muitas vezes, não dá para evitar. O máximo é torcer para que o sistema imunológico-emocional crie algum calo, para amortecer a dor.

Por mais calos no coração.

Lógica no Caos

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Quero que saiba que lamento todas as lágrimas que te fiz chorar, todas as lágrimas que chorei por você – mas lamento ainda mais todas as decisões que tomei por medo das lágrimas. (Pedro Chagas Freitas)

Existe uma lógica no caos. Não fui eu quem inventou isso. Bauman e Eco já falaram sobre uma possível ordem no meio da desordem, e nada tem a ver com borboletas e furacões.

O que importa é que o caos é aquilo que vem depois. Depois da guerra, do tsunami, de uma grande catástrofe…. enfim, depois do pior, vem o caos (leia-se como superlativo de pior).

Em outras palavras, o caos é o que sobra. Uma desorganização complexa que chega a atingir a onipotência, quando não a onipresença. Sim. O Caos devora você por dentro como um cupinzeiro, faz. Por fora uma estrutura bem definida, aparentemente resistente. Mas por dentro, um tecido fragmentado, perfurado, carcomido.  O caos é isso: o extremo da vulnerabilidade.

E onde está a lógica em tudo isso? A lógica está em se render. Aceitar o fato de que o passado é apenas história. O presente já não existe. E o futuro é o zero absoluto. Somente o caos consegue fazer isso. Consegue zerar. É como se o caos fosse uma grande gestante que devora você com tudo dentro, mastiga suas expectativas, engole seus planos, conceitos e prioridades.  Em troca, dará a luz a um novo você. Te jogará no mundo nu, não de roupas, mas de perspectivas.

Assim, a lógica do caos está em se ter à frente novas possibilidades para fazer novas escolhas. Desta vez sem medo.

O mesmo caos que destrói, também reconstrói.

Entre, aberta!

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A porta está aberta. E assim ela ficará.

A porta aberta é um convite, uma possibilidade e um risco….

É o risco da exposição e da perda do controle. Uma vez aberta, as chaves perdem o sentido.

É também uma possibilidade da despedida. Para que tudo o que deva ir, vá. Livremente, sem rodeios saia por onde entrou. Quando quiser.

Mas é, também, um convite. Para o que está fora possa entrar, ou voltar. Sem precisar bater, sem precisar esperar. Coisa de um passo.

Abrir aporta exige uma dose de coragem, duas sessões de terapia e uma pitada de rendição. Não se sabe o que ou quem vai passar de um lado para o outro, quem sai, quem entra…. Mas tem-se a certeza de que nada e ninguém ficará preso em um dos lados. É o caos, momentâneo e necessário!

Camisa de Força

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Há momentos que não se consegue falar o que se pensa e nem o que se sente. Por dentro, as palavras sobem e descem dentro como em uma montanha-russa sem trilhos e saem pelos dedos.

O medo de morrer engasgado com as palavras que não conseguiu dizer deixa de ser um clichê quando a garganta aperta.

Há uma contenção cruel que retém os mais sinceros impulsos. Assim como com os loucos, torturam a liberdade de expressar a loucura. Tolhem os desejos. Mumificam as expressões.

Qual o sentido em ser mumificado? Qual a razão para não gritar o que se deseja? É justamente essa a camisa de força, uma razão que aprisiona, aflige. Um algoz que desce o machado sobre o coração silenciando qualquer pulsar honesto e verdadeiro.

Amarram-se as mãos para trás, tirando toda possibilidade de toque, de tato. A distância já não é mais uma opção enquanto um abraço torna-se literalmente impossível.

A alma se debate dentro de um corpo já imobilizado. Anestesiado pela pressão que vem de todos os lados.

Livre são os loucos que dizem o que pensam e sentem o que dizem. Sorte dos loucos que podem estender os braços e tocar outro coração. Azar dos racionais que estão presos sem ter cometido crime. São reféns sem saber tiveram sua essência sequestrada.

Entreaberta

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Sabe quando você empurra a porta com tanta força para fechá-la que ela simplesmente bate e se volta contra você, como se recusasse a ficar fechada?

Rejeitada pela maçaneta, cabe aos pobres batentes absorver a violência estampada em força, enquanto as dobradiças em um esforço intenso desafiam a física e deixam a porta entreaberta….. Não esta fechada. Não está aberta. Apenas uma fresta separa e ao mesmo tempo mantém a ligação entre o lado de lá e o lado de cá.

Por essa fresta, uma realidade distorcida confunde o contato. Luz e sombras se projetam de um lado por outro revelando parcialmente o que poderia estar ocorrendo… Um desenho disforme, carregado de sugestões, espremido naquele pequeno vão cria um caleidoscópio de presságios.

Pelo mesmo vão é possível ouvir sons incompletos. Ruídos inconstantes comunicam possibilidades de dúvida e confusão. Apenas eco de vozes já não tão claras. Sílabas que escapam pela fresta e chegam perdidas ao outro lado.

Nem fechada, nem aberta. A porta está entreaberta. Imóvel. Traduzindo o mais alto nível de incompletude. De indefinição. De reticências.

O que se vê não é o bastante. O que se houve não é suficiente. Mas há naquela fresta uma chance, remota possibilidade daquela porta de abrir novamente. Ou então, ser surpreendida por um sopro de vento que termine de fechá-la de uma vez.

Stand By

Elephants Salvador Dali

Dia desses uma pessoa me disse “vou colocar você em stand by”. Claro que, no mesmo instante, eu me senti um telefone sem fio. Daqueles que quando a gente não está usando coloca na base e acende a luz de “stand by”. Aquela luz piscou na minha mente como uma frase em neon, daquelas de vitrine de loja americana.

É engraçada essa expressão. Teria ficado irritado ou deprimido se não tivesse parado pra pensar. E quando pensei achei graça. Porque a vida é algo engraçado. Rir das desgraças é engraçado (mesmo que não pareça. e quase sempre não parece). Principalmente quando o mundo grita na sua cara que você está em stand by.

Lá estava o telefone, quer dizer eu, em stand by. Tá, na prática, a gente coloca o telefone nessa função quando não estamos usando. Isso mesmo, ele fica lá em espera….

Esperar o quê? De quem? Até quando?

Se eu fosse um telefone a resposta seria, até tocar. Até que alguém resolvesse discar meu número, me chamar, então eu começaria a gritar ininterruptamente até que alguém resolvesse me atender e, então, pronto! Sairia de Stand by.

Enquanto isso não acontece, lá está o telefone, recolhido em sua insignificância. Parado, esquecido. Ou melhor, esperando. Um gerúndio silencioso, mórbido e tedioso.

Então, quando iria definitivamente achar que aquela expressão seria um ponto final na minha vida, descubro que era apenas uma vírgula. Nem toda luz no fim do túnel é o trem vindo em sua direção, no meu caso era uma luz  verde de “Bateria Carregada”.

Sim, ficar em stand by é o momento de recarregar a bateria. O telefone está lá, quieto, parado, mas dentro dele algo está acontecendo. Ficar em stand by pode não ser legal, mas necessário, afinal, perder a ligação da sua vida por falta de bateria seria desastroso.

 

O maior dos medos

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O maior medo de quem ama alguém é o de não ser correspondido. A possibilidade de todo o investimento não ter retorno consome o amante que busca somente a recíproca. Tamanho é o medo que é capaz de mudar a transitividade do verbo amar…. Apenas ama-se, de maneira intransitiva. Assim, cria-se uma proteção ao amor, ao amante e ao amado. No entanto, a cada aproximação da realidade aumenta-se o medo do amor não ser recebido, e com isso, não ser concretizado. O medo, então, devora a perspectiva, o futuro e, conseqüentemente o presente. O maior medo de quem ama e não é correspondido é o medo desse amor cair no vazio.

O maior medo de quem é amado é a possibilidade de deixar de sê-lo. Na busca do contrário, investe-se ainda mais nesse amor com o objetivo de afastar as chances da perda. Fortalecem-se então os vínculos, recriam-se as memórias, tudo para afastar o medo da perda do amor recebido. O medo de deixar de ser amado é angustiante. Desolador. A perda do amor do outro equivale à perda da gravidade, os pés deslocam-se do chão. Perde-se o contato com a realidade. Realidade que foi construída no amor recebido. O maior medo de quem é amado é o risco, real e também imaginário, de simplesmente de deixar de existir para o outro.

Mas o maior de todos os medos de quem ama é a possibilidade que vem de dentro. É o único medo que não depende ou envolve o outro. O maior dos medos é o medo de, simplesmente deixar de amar. Chega a ser surreal, porém não impossível, deixar de amar o objeto amado, cuidadosamente escolhido, conscientemente cultivado.  Medo que desafia a vulnerabilidade humana.  Deixar de amar quem se escolheu para amar é um medo tão aterrorizador que não nos damos conta de sua ameaça.  Optamos por suprimir, ocultar e desconsiderar, tamanha é a dor de aceitar sua possibilidade.

Em algum lugar, bem escondido, sabemos desse medo. Por isso, tratamos o amor como um amuleto da sorte. Aquele que seguramos firmes com as duas mãos e não o soltamos simplesmente pelo fato de que acreditamos que o sentimento nos pertence.  Agarrado a esse amuleto, enfrentamos o tempo, a distância, as mágoas, inconstâncias e incertezas.

O maior de todos os medos é o risco da possibilidade de que o amor sentido, aquele amor intransitivo, vire uma lembrança, transforme-se em uma memória, uma história contada. Uma história na qual você não é mais o protagonista, mas apenas um espectador distante.