Quem é você?

Hokusai great wave

Toda relação é definida por dois fatores: Tempo e Momentos. Quem disse isso? Oras, eu disse. Eu mesmo criei esse conceito e nada consegue me convencer do contrário.

É a quantidade de tempo (pouco ou muito) que vai definir ou redefinir os laços entre duas pessoas. Pois é ele, o tempo, que permite a conjugação mais linda em uma relação: o gerúndio. É o gerúndio que faz da relação um presente contínuo. Algo em andamento. Então nenhuma relação iniciada há alguns meses terá o mesmo vínculo que a iniciada há alguns anos. E sobre isso não há o que fazer.

O outro aspecto que define uma relação são os Momentos. As experiências vividas e compartilhadas. São memórias criadas pela e para a relação. Neste caso, não depende do tempo. Tratam-se daqueles encontros à primeira vista, ou um perrengue passado com um estranho, casos e acasos que transformam o status de uma relação num piscar de olhos.

Então já faz algum tempo que alguém tem chamado a minha atenção pela presença. Mesmo à distância, tem deixado suas pegadas de “hey passei por aqui”. E não é uma visita qualquer. Eu recebo muitas visitas, algumas entram sem bater, outras na ponta dos pés para não chamar atenção, mas essa é diferente. É aquela visita que faz a gente esperar pois sabe que vai vir. Ela nunca falha. Passa como uma brisa suave, não se sabe de onde vem, nem pra onde vai, mas deixa o seu toque.

Não só isso. Sinto que essa visita é daquelas que entra e já senta no sofá e fica observando a decoração da sala. De alguma forma já está intima da sua casa, pois ela acompanha sua rotina, conhece suas intimidades.

Então fiquei vários dias pensando nessa brisa. O que a faz voltar? Porque deixar rastro? Nesse tempo, temos dividido muitos momentos. Eu escrevo, você lê. Eu falo e você responde que me ouviu.

Mas, apesar de tanta presença, continuo sem saber quem está do lado de lá. Então escrevi este post pra você TATI (Lithium). Sei que você deseja não se identificar e tudo bem por isso. Mas saiba que sua presença não passa despercebida. Obrigado pelas suas visitas. Gostaria de poder te oferecer um chá, mas como não conheço seu rosto, só posso te oferecer minhas palavras carregadas de significados.

 

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DOR

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Eu não tenho tolerância a dor.

É claro (e torturante) que eu lembro disso exatamente quando ela aparece.

É irônico e controverso que eu ainda confesso isso mesmo após ter passado por dores terríveis. Como se minhas emoções fossem desprovidas de um sistema imunológico e não resiste ao mesmo vírus sentimental.

Eu estou falando da cirurgia de extração do meu siso, sim aquele resquício evolutivo que te faz sentir uma falha genética. Tinha apenas um, foi um procedimento rápido e bem-sucedido, mas me gerou dois dias de gastrite nervosa desde que marquei a cirurgia. Como uma crise de Transtorno de Estresse PRÉ-traumático, somente pelo fato de que naquela hora marcada iria doer.

A dor te faz ficar em alerta e o fato de agendar um horário pra ela te entrar em pânico. Algumas delas são necessárias, não! Nenhuma dor é necessária. Me recuso a acreditar nisso. Algumas são inevitáveis, talvez isso… Tirar o siso era inevitável, e a menos que você seja um odontofóbico, todo o drama em torno do siso é apenas drama. Esse é o meu caso. Mas é um drama muito real, porque todos os dramas são reais. Eles realmente ocorrem dentro das cabeças das pessoas e isso mexe com emoções com o corpo, mexeu com minha gastrite e o omeprazol não era imaginário.

Eu tinha medo de não aguentar ainda mais dor. Não importa de onde ela viesse.

Então passado o efeito da anestesia ela entrou com tudo, me fazendo de refém. Eu já disse que não tenho tolerância a dor. Então as únicas coisas que eu pensava era em provocar alguma dor maior para superar a dor do pós-operatório. Pensei em bater com a cabeça na parede, em morder meu braço, em riscar um fósforo na pele. Qualquer coisa para acabar com a dor dos pontos. Sim estava surtando, quem em sã consciência causaria uma dor maior se o objetivo é se livrar da dor.

Foi aí me que dei conta de algo muito interessante, quando estamos em dor a primeira coisa que some é a “sã consciência”, eu não consigo raciocinar com maturidade e tranquilidade. É algo visceral, primitivo, diria. Não consigo negociar com a dor, tão somente o desejo é o de fazer qualquer coisa para tirar ela da minha frente. E é aí que mora o perigo. Decisões precipitadas, atitudes desesperadas, escolhas que sabemos que não fazem sentido. Mas a final, qual o sentido de aceitar ou lidar com a dor? Eu entendo o desespero envolvido. Só quem já sentiu entende. Mas saibam que eu não bati com a cabeça na parede (apenas mentalmente).

Então a segunda coisa que entendi foi a noção do tempo. Quando se está em dor, sem anestésico, sem morfina, sem nada e ninguém para aliviá-la, aquele momento de dor é uma eternidade. O tempo para, você se sente em uma prisão perpétua. Uma sensação de que ela é incansável e invencível. Simplesmente desconsidera qualquer possibilidade de que ela pode passar, ou diminuir, ou mesmo de que você pode se acostumar. Não há como esperar para ver. Ninguém espera enquanto dói.

Eu não tenho tolerância a dor. Mesmo já tendo certa intimidade com ela. Estamos em uma “relação séria” atualmente. Talvez por isso eu esteja a conhecendo melhor. Talvez por isso mesmo é que consegui – de certa forma – não fazer tantas escolhas precipitadas ou atitudes desesperadas. Talvez por conviver com ela por algum tempo, entendi que ele – o tempo – é maior que ela.

Em relação ao pós-operatório do siso, este tipo de dor eu consigo manejar com medicamentos. Em alguns dias estará tudo bem. Será uma dor a menos.

A Ponte

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Ele se importava apenas quando sentia a luz contrair suas pupilas.

Ele se lembrava todas as vezes que o vento arrepiava seus pelos.

Ele suspirava sempre depois que o peito apertava de saudade.

 

E quando chegava a noite ele se importava mais.

Ele se importava mais com as verdades que não via

do que com as verdades que enxergava.

Porque ele se importava com o que ele conhecia.

 

Ele se importava com o sono, com os sonhos, com os passos.

Se importava com o peso, com a pele e com os medos.

Se importava pelo presente e com o futuro.

 

Ele simplesmente se importava.

E continuava a se importar.

Porque se importava.

O Espectador

SALVADOR DALÍ

De uns tempos pra cá, na verdade alguns meses, eu decidi deixar a posição de protagonista da minha própria vida para assumir o posto de um mero espectador de mim mesmo. E isso não é uma declaração de fracasso, nem um pedido de piedade. Apenas uma constatação da minha real situação que se transformou em nova experiência, momentânea espero, mas muito interessante.

Eu não fui criado para ser coadjuvante. Assumi o protagonismo da minha existência desde muito cedo. Me fiz forte e determinado. Assim como uma carreta na descida. E foi isso que sempre me moveu a me tornar a pessoa que sou: currículo, caráter e realizações.

Mas no fim da reta sempre tem uma curva e reduzir a velocidade é a única maneira de não sair da pista, essa é uma lei da física que você aprende por bem ou por mal.

Fato é que assumir essa posição mais “tímida” diria, não foi uma escolha muito voluntária, a bem da verdade foi como se a vida olhasse para mim e dissesse “senta lá Cláudia”.

Então, depois de ser patrolado por uma avalanche de sofrimento, desenvolver um transtorno assustador e ficar emocionalmente mutilado, atributos como autonomia, confiança, autoestima, esperança tornam-se totalmente fragilizados e vulneráveis.

Me restou abraçar um baldinho de pipoca imaginário e assistir minha própria vida passar diante dos meus olhos. É a mesma sensação de dar pause em um desenho animado. Quando a tela não está em movimento é possível observar melhor os detalhes, ver cores e formas que passavam despercebidos até então.

É uma experiência não tão confortável, uma vez que exige muita paciência. Uma paciência que você não quer ter, porque simplesmente te dá uma sensação de estagnação. Porém, é uma experiência gratificante e necessária. Necessária, pois tudo – eu disse tudo – o que você terá que passar e que sentir, será inevitável. Então a primeira cena que você vê é a de que “atalhos”, por mais que atrativos, apenas irão te levar de volta para o ponto de partida. São placebos caro leitor, apenas placebos.

A gratificação vem após o momento que você começa a aceitar. Esse é o pior dos exercícios: aceitar as próprias limitações, as decisões erradas, aceitar a realidade, aceitar também a si mesmo do jeito que é e, ao outro de igual forma. Aceitar que o tempo não volta, que conjecturas sobre o passado não mudam o presente e que hipóteses são apenas fantasias inanimadas.

Mas a graça de tudo isso, digo, de assistir a própria vida à distância é pode se ver sob uma nova perspectiva. Entender alguns trejeitos, conhecer melhor as próprias motivações e reações diante das escolhas e das não-escolhas.

É como ver a Guernica, de Picasso. Em poucos segundos é possível fazer uma leitura da obra, mas somente um olhar paciente e demorado poderá desvendar toda a riqueza de detalhes que fazem daquela obra única no mundo. Assim como todos nós, somos obras únicas e talvez nos falte esse olhar espectador sobre nós mesmos.

Dez por cento

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          “Algumas coisas levam tempo. Outras, o tempo leva”                                                            (autor desconhecido)

Minha avó dizia que “não há dor que sempre dure, nem alegria que nunca se acabe”. Reconhecer a sabedoria dela é imaginar tudo o que ela teve que passar para aprender sobre isso. Minha avó, talvez, tenha razão. Parte da frase dela eu já compreendi muito bem. A outra, confesso, estar custando um pouco para fazer sentido.

Pelo sim, pelo não. Não dá mais para ficar esperando a frase se cumprir na minha vida por completo. Minha formação em Greys Anatomy me mostrou que quanto maior a ferida, menos chances ela tem de cicatrizar sozinha. Não importa o quanto o corpo lute para fechá-la, esperar pode significar aumentar as chances de infecção. Para grandes feridas abertas são necessárias intervenções externas, costurá-las com linha e agulha, por exemplo, ou mesmo cauterizá-las com fogo podem resolver o que a “naturalmente” não foi resolvido. Algumas coisas são feitas à força. É necessário que seja assim.

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Submeter-se a um procedimento desses é assumir que esperar não foi suficiente, é aceitar que a regeneração não ocorreu como esperado. O tempo de observação acabou, a cura não veio. O diagnóstico não mudou. E após seis meses, vem o desengano.

Talvez, diferentemente da minha avó, eu não consiga todas as respostas e algumas incógnitas envelheçam comigo. Mas isso não muda o fato de que a vida não para até que você consiga entender seus mistérios.

Então só nos resta aceitá-los. E aceitar, não vai mudar o que você sente, não vai diminuir a dor, mas vai te libertar de esperar, de acreditar que será diferente. Não será diferente. A realidade já foi publicada e consolidada. Não há mais sombras de possibilidades. Já está tudo bem claro. É hora de trocar a vírgula pelo ponto final e virar a página.

E assim será porque “se, acaso nos encontrarmos será lindo. Se não, não há o que fazer”.

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vinte-e-três

Basquiat

Tá bom, eu confesso. Eu tenho pensamentos mágicos. Não só tenho como acredito neles. Eu os crio. Faço isso porque não acho que coincidências sejam aleatoriedades. E que a vida seja algo ordinário. Acredito que é a magia que colocamos nas pessoas, nos lugares, nos momentos, ou até mesmo em um cheiro, um som ou uma lembrança que faz serem únicos, especiais e inesquecíveis.

Não me julguem. Não estou só nessa. Assim como seo Manoel, eu também acho que “A importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produz em nós”. Assim, nos encantamos com pequenos detalhes que se tornam grandes importâncias, como um número, como um dia, como uma data. Um numeral perdido em um calendário entre outros 364 números. O que faz desse numero diferente dos outros é o encantamento. Essa é a magia.

Como toda mágica, ela acontece às vezes em um piscar de olhos, outras em um toque, ou mesmo em um pensamento. E também como toda mágica, tem seu tempo. Mas “é o tempo que dedicamos à nossa rosa que a faz tão importante”, já diria Exupery.

A vida, pra mim, é algo extraordinário por isso eu retoco cada momento com pinceladas de magia. Transformando as experiências em algo especial. Então eu me apego a isso e me convenço de que não foi simples, ou comum, ou normal. E justamente por estimar tudo, de maneira tão grande é que às vezes não queremos dar conta que alguns feitiços acabam ou são neutralizados pelos antídotos da realidade.

Isso só acontece porque eu tenho pensamentos mágicos. E sempre acho que coisas extraordinárias vão acontecer. Talvez a vida seja só ordinária, cinza e previsível.

Afinal, “são tempos difíceis para os sonhadores”. Mesmo assim eu ainda quero sonhar e acreditar nos pensamentos mágicos. Ainda que eles tirem meus pés do chão. Ainda que camuflem as coisas como realmente são. Foram eles que me trouxeram até aqui. Eles que me deram tantos suspiros e sorrisos por viver e por lembrar do que vivi.

Por isso, o vinte-e-três, nunca será somente o que vem depois do vinte-e-dois ou antes do vinve-e-quatro. Ele será único. Inesquecível. Mágico. Porque eu escolhi assim.

E é com esses olhos que eu quero, cada vez, mais enxergar a vida. E que se dane minha psicanalista.

Na vida não tem “meia-lua-pra-trás+B”

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Eu nunca tive um vídeo-game. Pasmem. Apesar de gostar bastante, me contentava em jogar nas férias, na casa de primos e amigos. Pelo menos me sobrou tempo para subir em árvores e montar Lego.

Mas eu me lembro de decorar os comandos para vencer nos jogos de luta, era preciso “apelar” para derrotar um opositor melhor que eu. Apelar significava morder os lábios e reproduzir espasmos com os dedos loucamente, sem pausa até o primeiro cair. De certa forma a gente tinha que usar a memória para guardar todos os comandos que produziam combos, liberavam poderes e faziam efeitos especiais. Era um tal de dois-pra-cima-um-pra-baixo+Y, ou então meia-lua-pra-trás+B e outras séries de combinações para encaixar o golpe.

Apelar não era a forma mais justa de se ganhar uma luta de vídeo-game, mas o que é justiça em um jogo onde o objetivo não é apenas derrotar o oponente, mas “finalizá-lo” de jeito.

Do lado de cá da tela, a vida não nos deixa “apelar”. Se parece mais com aqueles jogos de fase. O objetivo é passar de fase. Derrotar os chefões. Se livrar dos obstáculos. Tudo isso antes do Time Out. Afinal, se há alguma semelhança entre a vida e jogos de vídeo-game é o Game Over.

Fato é que tanto em um, quanto no outro, se não conseguimos “passar de fase”, seja por falta de habilidade, experiência, até mesmo inteligência (por que não?) é preciso voltar ao começo e fazer tudo novamente.

O lado bom de tudo isso é que a cada vez que voltamos ao início da fase, vamos avançando um pouco mais. Já sabemos onde estarão os obstáculos do caminho que já passamos. De certa forma, a repetição nos livra das surpresas. Já conhecemos o caminho. Gradativamente, vamos passando a fase com maior habilidade, mais rápido. Mesmo assim, qualquer movimento mais ousado, ou uma distração diante dos obstáculos (ou então as tartarugas, sim estou falando de Mário), pode ser fatal. E novamente teremos que voltar ao inicio da fase.

É um processo de aprendizagem. Enquanto não aprendemos como sobreviver nessa fase, não conseguimos seguir para a próxima. A vida, tanto no jogo, quanto fora dele se resume em chegar ao final e derrotar o chefão.

Voltar para o começo da fase não é necessariamente ruim. Já conhecemos o caminho até o ponto onde paramos e isso nos deixa mais confiante. E é essa confiança que nos move a avançar até o final. Voltar também nos permite fazer o caminho diferente. Repensar escolhas, explorar novas possibilidades, procurar “moedas” escondidas e até mesmo nos surpreender com alguma passagem secreta que não vimos na primeira vez.

Recomeçar o jogo pode ser interessante. Agradável. E até mesmo inédito. E o melhor, não é necessário apelar. Apenas curtir a fase. Até o próximo chefão.

Espera(nça)

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Quando eu era pequeno, aprendi que Esperança era o nome daquele grilo verde que aparecia do nada dentro de casa. Diferente de muitas pessoas, quando víamos um desses comemorávamos:  “olha a esperança”, apontava sem querer incomodar o inseto. Era como um sinal de sorte. Ali, parado. Imóvel.

Engraçado, porque pelo dicionário, esperança é “uma disposição de espírito que induz a esperar que uma coisa aconteça”. E era exatamente o que aquele grilo fazia: esperava. Pobre coitado, às margens da cadeia alimentar, presa universal. Imagino a angústia da frágil Esperança quando chega a noite e os predadores saem à caça.

Nessa hora, o esperar ganha outro sentido. A Esperança sabe da ameaça que a cerca. O medo invade aquele inseto, mas que curiosamente dentro dele, o que ele espera não é a própria morte. Do contrário, a esperança reside no desejo oculto e inconsciente de que por mais escura, longa e tenebrosa que seja aquela noite, em algum momento um raio de luz vai rasgar a escuridão, trazendo o dia e com ele uma nossa possibilidade de viver.

Certamente o grilo não tem domínio sobre seus predadores, muito menos sobre o dia ou a noite. Não cabe a ele decidir quando é hora de clarear. Mas sua esperança é um desejo ardente de que em algum momento a luz substitua as trevas. A disposição do espírito daquele pequeno inseto o induz a acreditar que ele não será tragado e que o medo e a morte, ainda que reais, são passageiros. Dentro dele existe uma fagulha que sustenta a crença de que é possível resistir, sobreviver e superar.

Então, quando amanhece, a Esperança segue ali, parada. Imóvel. Então, sim. Aquele inseto é um sinal de sorte. Da própria sorte. A prova de que a esperança funciona e, claro, é a última que morre.

A esperança não pode mudar nossa essência. Mas pode trazer uma nova visão de nós mesmos. Do quanto é possível acreditar que existe um amanhã melhor. De que a qualquer momento algum raio de luz vai invadir nossos medos, dissipar as angústias e trazer mais claridade sobre quem somos o que fizemos e o que podemos fazer. É na luz que podemos ver as coisas como realmente são. Que a esperança seja os olhos com os quais podemos enxergar o mundo.

Eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo

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Ouvir isso foi como aquele tapa na cara que traz de volta para a realidade. Mas que nem por isso é indolor. Doeu muito ouvir “eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo”. Foi a dor da libertação. Das algemas sendo arrancadas à força, levando junto parte de pele, carne e sangue.

É doloroso o fato do quanto se pode fazer mal a si mesmo e se envenenar aos poucos. Mas era chegada a hora de seguir a velha orientação de vôo:

“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma delas, coloque sobre o nariz e a boca e ajuste o elástico atrás da cabeça e respire normalmente. Coloque-a primeiramente em você e depois auxilie os outros, caso necessário”

A verdade é que o ar já estava rarefeito. A falta de oxigênio diminui a atividade cerebral. Mesmo que a máscara estivesse ao alcance das mãos, executar os procedimentos de preservação exigia muito. Exigia um fôlego de vida a mais. Exigia um golpe de amor próprio.

Foi então que esse golpe me atingiu em cheio. Veio de fora e entrou rasgando meus pulmões, soprando um novo ar.

Pode parecer um tanto egoísta pegar a primeira máscara para você mesmo e correr o risco de ver outras pessoas não conseguirem. Mas há um altruísmo embutido no fato de que não se pode ajudar o outro a respirar se você mesmo não tem oxigênio.

Eu era o cara da poltrona ao lado. Alguém precisou colocar em mim a máscara. Quanto mais tempo você passa sem oxigênio, maiores dificuldades terá em “respirar normalmente”.

Já era hora de voltar a respirar. Aos poucos o pulmão se adapta. Aos poucos você se adapta. Aos poucos você volta ao normal.

“Eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo”.

Já disse que foi libertador ouvir isso?

Calo Necessário

Os gemeos

Vamos falar sobre calos. Isso, aquela parte da pele que se tornou grossa e rígida. Uma protuberância feia e insensível. A dermatologia explica que eles são como uma resposta natural da pele a repetidos contatos, pressões e movimentos. Só não diz nada sobre para que servem os calos.

Eu tenho um desses no meu dedo maior, na mão esquerda, ele me acompanha desde que comecei a escrever. Sempre escrevi com muita força e pressionava lápis e caneta neste dedo, logo acima da unha, na primeira falange. Nunca gostei desse calo. Já tentei cortá-lo, mordê-lo….  Hoje eu já me acostumei com ele. Aperto, aperto e não sinto nada.

Eu já não escrevo tanto, troquei o lápis pelo teclado, e nem por isso o calo diminuiu. Ele continua ali. Esses dias eu fiquei olhando pra ele e percebi então, para que servem os calos.

Esse calo me conta uma história. Ele me lembra do tanto que já escrevi. Dos tempos de escola, de fichário, de copiar rápido a matéria para sobrar tempo para conversar com os colegas.

Esse mesmo calo, feio, duro, foi muito importante para que eu fosse a pessoa que sou hoje. Eu trabalho com a escrita. Então, ele protegeu meu dedo para que eu pudesse continuar escrevendo sem sentir a dor da caneta pressionando a pele. Foi então que eu passei a olhar para esse calo de uma maneira diferente. Ele nem é tão feio assim. Afinal, já faz parte de mim e me permite continuar a escrever, de uma maneira mais confortável, até.

Se olharmos para os calos como proteções necessárias, como um reflexo adaptativo, poderemos então, ser mais gratos ao sentir menos as mesmas dores.

Eu me lembro que no primário, meu dedo doía muito quando eu escrevia. Eu não podia simplesmente parar de escrever para evitar a dor. Então meu corpo criou essa barreira natural. Às vezes algumas dores esfolam o coração e também, muitas vezes, não dá para evitar. O máximo é torcer para que o sistema imunológico-emocional crie algum calo, para amortecer a dor.

Por mais calos no coração.