Dez por cento

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          “Algumas coisas levam tempo. Outras, o tempo leva”                                                            (autor desconhecido)

Minha avó dizia que “não há dor que sempre dure, nem alegria que nunca se acabe”. Reconhecer a sabedoria dela é imaginar tudo o que ela teve que passar para aprender sobre isso. Minha avó, talvez, tenha razão. Parte da frase dela eu já compreendi muito bem. A outra, confesso, estar custando um pouco para fazer sentido.

Pelo sim, pelo não. Não dá mais para ficar esperando a frase se cumprir na minha vida por completo. Minha formação em Greys Anatomy me mostrou que quanto maior a ferida, menos chances ela tem de cicatrizar sozinha. Não importa o quanto o corpo lute para fechá-la, esperar pode significar aumentar as chances de infecção. Para grandes feridas abertas são necessárias intervenções externas, costurá-las com linha e agulha, por exemplo, ou mesmo cauterizá-las com fogo podem resolver o que a “naturalmente” não foi resolvido. Algumas coisas são feitas à força. É necessário que seja assim.

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Submeter-se a um procedimento desses é assumir que esperar não foi suficiente, é aceitar que a regeneração não ocorreu como esperado. O tempo de observação acabou, a cura não veio. O diagnóstico não mudou. E após seis meses, vem o desengano.

Talvez, diferentemente da minha avó, eu não consiga todas as respostas e algumas incógnitas envelheçam comigo. Mas isso não muda o fato de que a vida não para até que você consiga entender seus mistérios.

Então só nos resta aceitá-los. E aceitar, não vai mudar o que você sente, não vai diminuir a dor, mas vai te libertar de esperar, de acreditar que será diferente. Não será diferente. A realidade já foi publicada e consolidada. Não há mais sombras de possibilidades. Já está tudo bem claro. É hora de trocar a vírgula pelo ponto final e virar a página.

E assim será porque “se, acaso nos encontrarmos será lindo. Se não, não há o que fazer”.

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vinte-e-três

Basquiat

Tá bom, eu confesso. Eu tenho pensamentos mágicos. Não só tenho como acredito neles. Eu os crio. Faço isso porque não acho que coincidências sejam aleatoriedades. E que a vida seja algo ordinário. Acredito que é a magia que colocamos nas pessoas, nos lugares, nos momentos, ou até mesmo em um cheiro, um som ou uma lembrança que faz serem únicos, especiais e inesquecíveis.

Não me julguem. Não estou só nessa. Assim como seo Manoel, eu também acho que “A importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produz em nós”. Assim, nos encantamos com pequenos detalhes que se tornam grandes importâncias, como um número, como um dia, como uma data. Um numeral perdido em um calendário entre outros 364 números. O que faz desse numero diferente dos outros é o encantamento. Essa é a magia.

Como toda mágica, ela acontece às vezes em um piscar de olhos, outras em um toque, ou mesmo em um pensamento. E também como toda mágica, tem seu tempo. Mas “é o tempo que dedicamos à nossa rosa que a faz tão importante”, já diria Exupery.

A vida, pra mim, é algo extraordinário por isso eu retoco cada momento com pinceladas de magia. Transformando as experiências em algo especial. Então eu me apego a isso e me convenço de que não foi simples, ou comum, ou normal. E justamente por estimar tudo, de maneira tão grande é que às vezes não queremos dar conta que alguns feitiços acabam ou são neutralizados pelos antídotos da realidade.

Isso só acontece porque eu tenho pensamentos mágicos. E sempre acho que coisas extraordinárias vão acontecer. Talvez a vida seja só ordinária, cinza e previsível.

Afinal, “são tempos difíceis para os sonhadores”. Mesmo assim eu ainda quero sonhar e acreditar nos pensamentos mágicos. Ainda que eles tirem meus pés do chão. Ainda que camuflem as coisas como realmente são. Foram eles que me trouxeram até aqui. Eles que me deram tantos suspiros e sorrisos por viver e por lembrar do que vivi.

Por isso, o vinte-e-três, nunca será somente o que vem depois do vinte-e-dois ou antes do vinve-e-quatro. Ele será único. Inesquecível. Mágico. Porque eu escolhi assim.

E é com esses olhos que eu quero, cada vez, mais enxergar a vida. E que se dane minha psicanalista.

Na vida não tem “meia-lua-pra-trás+B”

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Eu nunca tive um vídeo-game. Pasmem. Apesar de gostar bastante, me contentava em jogar nas férias, na casa de primos e amigos. Pelo menos me sobrou tempo para subir em árvores e montar Lego.

Mas eu me lembro de decorar os comandos para vencer nos jogos de luta, era preciso “apelar” para derrotar um opositor melhor que eu. Apelar significava morder os lábios e reproduzir espasmos com os dedos loucamente, sem pausa até o primeiro cair. De certa forma a gente tinha que usar a memória para guardar todos os comandos que produziam combos, liberavam poderes e faziam efeitos especiais. Era um tal de dois-pra-cima-um-pra-baixo+Y, ou então meia-lua-pra-trás+B e outras séries de combinações para encaixar o golpe.

Apelar não era a forma mais justa de se ganhar uma luta de vídeo-game, mas o que é justiça em um jogo onde o objetivo não é apenas derrotar o oponente, mas “finalizá-lo” de jeito.

Do lado de cá da tela, a vida não nos deixa “apelar”. Se parece mais com aqueles jogos de fase. O objetivo é passar de fase. Derrotar os chefões. Se livrar dos obstáculos. Tudo isso antes do Time Out. Afinal, se há alguma semelhança entre a vida e jogos de vídeo-game é o Game Over.

Fato é que tanto em um, quanto no outro, se não conseguimos “passar de fase”, seja por falta de habilidade, experiência, até mesmo inteligência (por que não?) é preciso voltar ao começo e fazer tudo novamente.

O lado bom de tudo isso é que a cada vez que voltamos ao início da fase, vamos avançando um pouco mais. Já sabemos onde estarão os obstáculos do caminho que já passamos. De certa forma, a repetição nos livra das surpresas. Já conhecemos o caminho. Gradativamente, vamos passando a fase com maior habilidade, mais rápido. Mesmo assim, qualquer movimento mais ousado, ou uma distração diante dos obstáculos (ou então as tartarugas, sim estou falando de Mário), pode ser fatal. E novamente teremos que voltar ao inicio da fase.

É um processo de aprendizagem. Enquanto não aprendemos como sobreviver nessa fase, não conseguimos seguir para a próxima. A vida, tanto no jogo, quanto fora dele se resume em chegar ao final e derrotar o chefão.

Voltar para o começo da fase não é necessariamente ruim. Já conhecemos o caminho até o ponto onde paramos e isso nos deixa mais confiante. E é essa confiança que nos move a avançar até o final. Voltar também nos permite fazer o caminho diferente. Repensar escolhas, explorar novas possibilidades, procurar “moedas” escondidas e até mesmo nos surpreender com alguma passagem secreta que não vimos na primeira vez.

Recomeçar o jogo pode ser interessante. Agradável. E até mesmo inédito. E o melhor, não é necessário apelar. Apenas curtir a fase. Até o próximo chefão.

Espera(nça)

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Quando eu era pequeno, aprendi que Esperança era o nome daquele grilo verde que aparecia do nada dentro de casa. Diferente de muitas pessoas, quando víamos um desses comemorávamos:  “olha a esperança”, apontava sem querer incomodar o inseto. Era como um sinal de sorte. Ali, parado. Imóvel.

Engraçado, porque pelo dicionário, esperança é “uma disposição de espírito que induz a esperar que uma coisa aconteça”. E era exatamente o que aquele grilo fazia: esperava. Pobre coitado, às margens da cadeia alimentar, presa universal. Imagino a angústia da frágil Esperança quando chega a noite e os predadores saem à caça.

Nessa hora, o esperar ganha outro sentido. A Esperança sabe da ameaça que a cerca. O medo invade aquele inseto, mas que curiosamente dentro dele, o que ele espera não é a própria morte. Do contrário, a esperança reside no desejo oculto e inconsciente de que por mais escura, longa e tenebrosa que seja aquela noite, em algum momento um raio de luz vai rasgar a escuridão, trazendo o dia e com ele uma nossa possibilidade de viver.

Certamente o grilo não tem domínio sobre seus predadores, muito menos sobre o dia ou a noite. Não cabe a ele decidir quando é hora de clarear. Mas sua esperança é um desejo ardente de que em algum momento a luz substitua as trevas. A disposição do espírito daquele pequeno inseto o induz a acreditar que ele não será tragado e que o medo e a morte, ainda que reais, são passageiros. Dentro dele existe uma fagulha que sustenta a crença de que é possível resistir, sobreviver e superar.

Então, quando amanhece, a Esperança segue ali, parada. Imóvel. Então, sim. Aquele inseto é um sinal de sorte. Da própria sorte. A prova de que a esperança funciona e, claro, é a última que morre.

A esperança não pode mudar nossa essência. Mas pode trazer uma nova visão de nós mesmos. Do quanto é possível acreditar que existe um amanhã melhor. De que a qualquer momento algum raio de luz vai invadir nossos medos, dissipar as angústias e trazer mais claridade sobre quem somos o que fizemos e o que podemos fazer. É na luz que podemos ver as coisas como realmente são. Que a esperança seja os olhos com os quais podemos enxergar o mundo.

Eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo

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Ouvir isso foi como aquele tapa na cara que traz de volta para a realidade. Mas que nem por isso é indolor. Doeu muito ouvir “eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo”. Foi a dor da libertação. Das algemas sendo arrancadas à força, levando junto parte de pele, carne e sangue.

É doloroso o fato do quanto se pode fazer mal a si mesmo e se envenenar aos poucos. Mas era chegada a hora de seguir a velha orientação de vôo:

“Em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente. Puxe uma delas, coloque sobre o nariz e a boca e ajuste o elástico atrás da cabeça e respire normalmente. Coloque-a primeiramente em você e depois auxilie os outros, caso necessário”

A verdade é que o ar já estava rarefeito. A falta de oxigênio diminui a atividade cerebral. Mesmo que a máscara estivesse ao alcance das mãos, executar os procedimentos de preservação exigia muito. Exigia um fôlego de vida a mais. Exigia um golpe de amor próprio.

Foi então que esse golpe me atingiu em cheio. Veio de fora e entrou rasgando meus pulmões, soprando um novo ar.

Pode parecer um tanto egoísta pegar a primeira máscara para você mesmo e correr o risco de ver outras pessoas não conseguirem. Mas há um altruísmo embutido no fato de que não se pode ajudar o outro a respirar se você mesmo não tem oxigênio.

Eu era o cara da poltrona ao lado. Alguém precisou colocar em mim a máscara. Quanto mais tempo você passa sem oxigênio, maiores dificuldades terá em “respirar normalmente”.

Já era hora de voltar a respirar. Aos poucos o pulmão se adapta. Aos poucos você se adapta. Aos poucos você volta ao normal.

“Eu não vou deixar você fazer isso com você mesmo”.

Já disse que foi libertador ouvir isso?

Calo Necessário

Os gemeos

Vamos falar sobre calos. Isso, aquela parte da pele que se tornou grossa e rígida. Uma protuberância feia e insensível. A dermatologia explica que eles são como uma resposta natural da pele a repetidos contatos, pressões e movimentos. Só não diz nada sobre para que servem os calos.

Eu tenho um desses no meu dedo maior, na mão esquerda, ele me acompanha desde que comecei a escrever. Sempre escrevi com muita força e pressionava lápis e caneta neste dedo, logo acima da unha, na primeira falange. Nunca gostei desse calo. Já tentei cortá-lo, mordê-lo….  Hoje eu já me acostumei com ele. Aperto, aperto e não sinto nada.

Eu já não escrevo tanto, troquei o lápis pelo teclado, e nem por isso o calo diminuiu. Ele continua ali. Esses dias eu fiquei olhando pra ele e percebi então, para que servem os calos.

Esse calo me conta uma história. Ele me lembra do tanto que já escrevi. Dos tempos de escola, de fichário, de copiar rápido a matéria para sobrar tempo para conversar com os colegas.

Esse mesmo calo, feio, duro, foi muito importante para que eu fosse a pessoa que sou hoje. Eu trabalho com a escrita. Então, ele protegeu meu dedo para que eu pudesse continuar escrevendo sem sentir a dor da caneta pressionando a pele. Foi então que eu passei a olhar para esse calo de uma maneira diferente. Ele nem é tão feio assim. Afinal, já faz parte de mim e me permite continuar a escrever, de uma maneira mais confortável, até.

Se olharmos para os calos como proteções necessárias, como um reflexo adaptativo, poderemos então, ser mais gratos ao sentir menos as mesmas dores.

Eu me lembro que no primário, meu dedo doía muito quando eu escrevia. Eu não podia simplesmente parar de escrever para evitar a dor. Então meu corpo criou essa barreira natural. Às vezes algumas dores esfolam o coração e também, muitas vezes, não dá para evitar. O máximo é torcer para que o sistema imunológico-emocional crie algum calo, para amortecer a dor.

Por mais calos no coração.

Lógica no Caos

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Quero que saiba que lamento todas as lágrimas que te fiz chorar, todas as lágrimas que chorei por você – mas lamento ainda mais todas as decisões que tomei por medo das lágrimas. (Pedro Chagas Freitas)

Existe uma lógica no caos. Não fui eu quem inventou isso. Bauman e Eco já falaram sobre uma possível ordem no meio da desordem, e nada tem a ver com borboletas e furacões.

O que importa é que o caos é aquilo que vem depois. Depois da guerra, do tsunami, de uma grande catástrofe…. enfim, depois do pior, vem o caos (leia-se como superlativo de pior).

Em outras palavras, o caos é o que sobra. Uma desorganização complexa que chega a atingir a onipotência, quando não a onipresença. Sim. O Caos devora você por dentro como um cupinzeiro, faz. Por fora uma estrutura bem definida, aparentemente resistente. Mas por dentro, um tecido fragmentado, perfurado, carcomido.  O caos é isso: o extremo da vulnerabilidade.

E onde está a lógica em tudo isso? A lógica está em se render. Aceitar o fato de que o passado é apenas história. O presente já não existe. E o futuro é o zero absoluto. Somente o caos consegue fazer isso. Consegue zerar. É como se o caos fosse uma grande gestante que devora você com tudo dentro, mastiga suas expectativas, engole seus planos, conceitos e prioridades.  Em troca, dará a luz a um novo você. Te jogará no mundo nu, não de roupas, mas de perspectivas.

Assim, a lógica do caos está em se ter à frente novas possibilidades para fazer novas escolhas. Desta vez sem medo.

O mesmo caos que destrói, também reconstrói.

Entre, aberta!

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A porta está aberta. E assim ela ficará.

A porta aberta é um convite, uma possibilidade e um risco….

É o risco da exposição e da perda do controle. Uma vez aberta, as chaves perdem o sentido.

É também uma possibilidade da despedida. Para que tudo o que deva ir, vá. Livremente, sem rodeios saia por onde entrou. Quando quiser.

Mas é, também, um convite. Para o que está fora possa entrar, ou voltar. Sem precisar bater, sem precisar esperar. Coisa de um passo.

Abrir aporta exige uma dose de coragem, duas sessões de terapia e uma pitada de rendição. Não se sabe o que ou quem vai passar de um lado para o outro, quem sai, quem entra…. Mas tem-se a certeza de que nada e ninguém ficará preso em um dos lados. É o caos, momentâneo e necessário!

Camisa de Força

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Há momentos que não se consegue falar o que se pensa e nem o que se sente. Por dentro, as palavras sobem e descem dentro como em uma montanha-russa sem trilhos e saem pelos dedos.

O medo de morrer engasgado com as palavras que não conseguiu dizer deixa de ser um clichê quando a garganta aperta.

Há uma contenção cruel que retém os mais sinceros impulsos. Assim como com os loucos, torturam a liberdade de expressar a loucura. Tolhem os desejos. Mumificam as expressões.

Qual o sentido em ser mumificado? Qual a razão para não gritar o que se deseja? É justamente essa a camisa de força, uma razão que aprisiona, aflige. Um algoz que desce o machado sobre o coração silenciando qualquer pulsar honesto e verdadeiro.

Amarram-se as mãos para trás, tirando toda possibilidade de toque, de tato. A distância já não é mais uma opção enquanto um abraço torna-se literalmente impossível.

A alma se debate dentro de um corpo já imobilizado. Anestesiado pela pressão que vem de todos os lados.

Livre são os loucos que dizem o que pensam e sentem o que dizem. Sorte dos loucos que podem estender os braços e tocar outro coração. Azar dos racionais que estão presos sem ter cometido crime. São reféns sem saber tiveram sua essência sequestrada.

Entreaberta

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Sabe quando você empurra a porta com tanta força para fechá-la que ela simplesmente bate e se volta contra você, como se recusasse a ficar fechada?

Rejeitada pela maçaneta, cabe aos pobres batentes absorver a violência estampada em força, enquanto as dobradiças em um esforço intenso desafiam a física e deixam a porta entreaberta….. Não esta fechada. Não está aberta. Apenas uma fresta separa e ao mesmo tempo mantém a ligação entre o lado de lá e o lado de cá.

Por essa fresta, uma realidade distorcida confunde o contato. Luz e sombras se projetam de um lado por outro revelando parcialmente o que poderia estar ocorrendo… Um desenho disforme, carregado de sugestões, espremido naquele pequeno vão cria um caleidoscópio de presságios.

Pelo mesmo vão é possível ouvir sons incompletos. Ruídos inconstantes comunicam possibilidades de dúvida e confusão. Apenas eco de vozes já não tão claras. Sílabas que escapam pela fresta e chegam perdidas ao outro lado.

Nem fechada, nem aberta. A porta está entreaberta. Imóvel. Traduzindo o mais alto nível de incompletude. De indefinição. De reticências.

O que se vê não é o bastante. O que se houve não é suficiente. Mas há naquela fresta uma chance, remota possibilidade daquela porta de abrir novamente. Ou então, ser surpreendida por um sopro de vento que termine de fechá-la de uma vez.