Fantasia

Magical-Levitation-Photography-by-David-Blaine-1

Ele calcava os pés nos chão para passar despercebido entre os demais. Mas sabia que sua mente e seu coração flutuavam. Era como se sua cabeça fosse um balão de gás, suspenso no mundo da fantasia.

E quando ninguém estava olhando, ele discretamente deslocava o calcanhar e sonhava acordado. Vislumbrava momentos que não aconteceram. Pessoas que não estavam lá.

Mas eram reais.

Tão reais que suas fantasias lhe roubavam sorrisos e provocaram suspiros compulsivamente. Convencido de que seria surpreendido pelas próprias fantasias alimentava o quanto podia o desejo de ser reencontrado.

….

Então, voltava a tocar o solo. A realidade não tinha todas as cores, nem lhe fazia borbulhar a barriga. Não havia ninguém lá. Nem esperança, nem surpresa.

Ninguém o estaria esperando na porta, nem iria cruzar-lhe o caminho subitamente. Mas ele ousava contrariar a realidade e, com todas as forças, suspendia-se do chão novamente. O alívio momentâneo daquela verdade que ainda não tinha acontecido era suficiente para lhe acalmar o coração.

Naquele lugar, as cores, o brilho e a música davam conta dos desejos mais belos e puros. Lá, não havia assento para culpas e nem culpados. Mesmo assim, a gravidade insistia em lhe puxa para baixo.

Outra vez olhava e não via ninguém. Encontrava o vazio e isso era desesperador…..

….

Lembrou-se de quando estava à beira do abismo. Aquele empurrão dado, era o da liberdade, mas não havia reverberado o efeito esperado. Era para ser um impulso da salvação! Aquele que faz brotar asas, que ensina a voar, que desperta o instinto de sobrevivência quando se vê à beira da morte.

Então ele ficou esperando….

Esperando que do vácuo ressurgisse rompendo a gravidade, envolvido no vigor da liberdade, na própria força interior.  Baixou os olhos para seus pés, via as pontas dos dedos tocando a extremidade do penhasco. Olhava para baixo, esperando algum movimento, algum vento balançar seus cabelos.

E, nada.

O nada era o solo que agarrava seus pés drenando suas fantasias tão pueris. Por isso ele preferia o ar. No ar é onde as coisas fazem mais sentido, não precisa de raiz quem pode voar.

Era tão bom sentir no rosto as cócegas provocadas por aquele sorriso, ou experimentar a leveza de ser arrebatados pelas doces memórias de outrora.

Por isso, quando queria um carinho na alma, fantasiava.

Repetia acordado o mesmo sonho, de que a qualquer momento seria reencontrado, surpreendido. Saía todos os dias acreditando que seria naquele dia. Que a qualquer momento poderia acontecer.

Vivia um gerúndio absoluto do movimento de tocar e se desprender do solo.

Ele só queria que fosse verdade.

Que a verdade fosse real.

E que o real, fosse… que aquele empurrão não tivesse sido o da separação.

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Sobre Renato Lima

Jornalista, estudante de psicologia, mochileiro e observador de comportamento.

Publicado em 21/05/2015, em Mood e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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