Na vida não tem “meia-lua-pra-trás+B”

campbell-andy-wahrol
Eu nunca tive um vídeo-game. Pasmem. Apesar de gostar bastante, me contentava em jogar nas férias, na casa de primos e amigos. Pelo menos me sobrou tempo para subir em árvores e montar Lego.

Mas eu me lembro de decorar os comandos para vencer nos jogos de luta, era preciso “apelar” para derrotar um opositor melhor que eu. Apelar significava morder os lábios e reproduzir espasmos com os dedos loucamente, sem pausa até o primeiro cair. De certa forma a gente tinha que usar a memória para guardar todos os comandos que produziam combos, liberavam poderes e faziam efeitos especiais. Era um tal de dois-pra-cima-um-pra-baixo+Y, ou então meia-lua-pra-trás+B e outras séries de combinações para encaixar o golpe.

Apelar não era a forma mais justa de se ganhar uma luta de vídeo-game, mas o que é justiça em um jogo onde o objetivo não é apenas derrotar o oponente, mas “finalizá-lo” de jeito.

Do lado de cá da tela, a vida não nos deixa “apelar”. Se parece mais com aqueles jogos de fase. O objetivo é passar de fase. Derrotar os chefões. Se livrar dos obstáculos. Tudo isso antes do Time Out. Afinal, se há alguma semelhança entre a vida e jogos de vídeo-game é o Game Over.

Fato é que tanto em um, quanto no outro, se não conseguimos “passar de fase”, seja por falta de habilidade, experiência, até mesmo inteligência (por que não?) é preciso voltar ao começo e fazer tudo novamente.

O lado bom de tudo isso é que a cada vez que voltamos ao início da fase, vamos avançando um pouco mais. Já sabemos onde estarão os obstáculos do caminho que já passamos. De certa forma, a repetição nos livra das surpresas. Já conhecemos o caminho. Gradativamente, vamos passando a fase com maior habilidade, mais rápido. Mesmo assim, qualquer movimento mais ousado, ou uma distração diante dos obstáculos (ou então as tartarugas, sim estou falando de Mário), pode ser fatal. E novamente teremos que voltar ao inicio da fase.

É um processo de aprendizagem. Enquanto não aprendemos como sobreviver nessa fase, não conseguimos seguir para a próxima. A vida, tanto no jogo, quanto fora dele se resume em chegar ao final e derrotar o chefão.

Voltar para o começo da fase não é necessariamente ruim. Já conhecemos o caminho até o ponto onde paramos e isso nos deixa mais confiante. E é essa confiança que nos move a avançar até o final. Voltar também nos permite fazer o caminho diferente. Repensar escolhas, explorar novas possibilidades, procurar “moedas” escondidas e até mesmo nos surpreender com alguma passagem secreta que não vimos na primeira vez.

Recomeçar o jogo pode ser interessante. Agradável. E até mesmo inédito. E o melhor, não é necessário apelar. Apenas curtir a fase. Até o próximo chefão.

Anúncios

Sobre Renato Lima

Jornalista, estudante de psicologia, mochileiro e observador de comportamento.

Publicado em 15/07/2017, em Sem categoria. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: