Espera(nça)

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Quando eu era pequeno, aprendi que Esperança era o nome daquele grilo verde que aparecia do nada dentro de casa. Diferente de muitas pessoas, quando víamos um desses comemorávamos:  “olha a esperança”, apontava sem querer incomodar o inseto. Era como um sinal de sorte. Ali, parado. Imóvel.

Engraçado, porque pelo dicionário, esperança é “uma disposição de espírito que induz a esperar que uma coisa aconteça”. E era exatamente o que aquele grilo fazia: esperava. Pobre coitado, às margens da cadeia alimentar, presa universal. Imagino a angústia da frágil Esperança quando chega a noite e os predadores saem à caça.

Nessa hora, o esperar ganha outro sentido. A Esperança sabe da ameaça que a cerca. O medo invade aquele inseto, mas que curiosamente dentro dele, o que ele espera não é a própria morte. Do contrário, a esperança reside no desejo oculto e inconsciente de que por mais escura, longa e tenebrosa que seja aquela noite, em algum momento um raio de luz vai rasgar a escuridão, trazendo o dia e com ele uma nossa possibilidade de viver.

Certamente o grilo não tem domínio sobre seus predadores, muito menos sobre o dia ou a noite. Não cabe a ele decidir quando é hora de clarear. Mas sua esperança é um desejo ardente de que em algum momento a luz substitua as trevas. A disposição do espírito daquele pequeno inseto o induz a acreditar que ele não será tragado e que o medo e a morte, ainda que reais, são passageiros. Dentro dele existe uma fagulha que sustenta a crença de que é possível resistir, sobreviver e superar.

Então, quando amanhece, a Esperança segue ali, parada. Imóvel. Então, sim. Aquele inseto é um sinal de sorte. Da própria sorte. A prova de que a esperança funciona e, claro, é a última que morre.

A esperança não pode mudar nossa essência. Mas pode trazer uma nova visão de nós mesmos. Do quanto é possível acreditar que existe um amanhã melhor. De que a qualquer momento algum raio de luz vai invadir nossos medos, dissipar as angústias e trazer mais claridade sobre quem somos o que fizemos e o que podemos fazer. É na luz que podemos ver as coisas como realmente são. Que a esperança seja os olhos com os quais podemos enxergar o mundo.

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Sobre Renato Lima

Jornalista, psicólogo, mochileiro e observador de comportamento.

Publicado em 08/07/2017, em Sem categoria. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Temos de ter esperança, sempre, amigo. Tô contigo!

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