O maior dos medos

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O maior medo de quem ama alguém é o de não ser correspondido. A possibilidade de todo o investimento não ter retorno consome o amante que busca somente a recíproca. Tamanho é o medo que é capaz de mudar a transitividade do verbo amar…. Apenas ama-se, de maneira intransitiva. Assim, cria-se uma proteção ao amor, ao amante e ao amado. No entanto, a cada aproximação da realidade aumenta-se o medo do amor não ser recebido, e com isso, não ser concretizado. O medo, então, devora a perspectiva, o futuro e, conseqüentemente o presente. O maior medo de quem ama e não é correspondido é o medo desse amor cair no vazio.

O maior medo de quem é amado é a possibilidade de deixar de sê-lo. Na busca do contrário, investe-se ainda mais nesse amor com o objetivo de afastar as chances da perda. Fortalecem-se então os vínculos, recriam-se as memórias, tudo para afastar o medo da perda do amor recebido. O medo de deixar de ser amado é angustiante. Desolador. A perda do amor do outro equivale à perda da gravidade, os pés deslocam-se do chão. Perde-se o contato com a realidade. Realidade que foi construída no amor recebido. O maior medo de quem é amado é o risco, real e também imaginário, de simplesmente de deixar de existir para o outro.

Mas o maior de todos os medos de quem ama é a possibilidade que vem de dentro. É o único medo que não depende ou envolve o outro. O maior dos medos é o medo de, simplesmente deixar de amar. Chega a ser surreal, porém não impossível, deixar de amar o objeto amado, cuidadosamente escolhido, conscientemente cultivado.  Medo que desafia a vulnerabilidade humana.  Deixar de amar quem se escolheu para amar é um medo tão aterrorizador que não nos damos conta de sua ameaça.  Optamos por suprimir, ocultar e desconsiderar, tamanha é a dor de aceitar sua possibilidade.

Em algum lugar, bem escondido, sabemos desse medo. Por isso, tratamos o amor como um amuleto da sorte. Aquele que seguramos firmes com as duas mãos e não o soltamos simplesmente pelo fato de que acreditamos que o sentimento nos pertence.  Agarrado a esse amuleto, enfrentamos o tempo, a distância, as mágoas, inconstâncias e incertezas.

O maior de todos os medos é o risco da possibilidade de que o amor sentido, aquele amor intransitivo, vire uma lembrança, transforme-se em uma memória, uma história contada. Uma história na qual você não é mais o protagonista, mas apenas um espectador distante.

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Sobre Renato Lima

Jornalista, psicólogo, mochileiro e observador de comportamento.

Publicado em 14/05/2017, em Sem categoria. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. octavio f l almeida

    Não vejo o apego ao “amar” como um amuleto. Bem, na verdade, nunca parei para pensar desta maneira. Até pode ser…. mas amar e ser correspondido é acima de tudo a confiança que vc tem a pessoa certa (?) do seu lado. Sabe o que pode falar, sabe o que pode fazer, sabe o que pode perguntar, sabe o que pode agrada-la ou não… Dentre outros atributos, o amor, acima de tudo, é cômodo…
    Quando esse amor acaba, passamos por fases… e até a fase em que os sentimentos que você tinha na outra pessoa se tornem boas recordações, é um momento muito turbulento (se não for o pior). Nessas horas só vemos e pensamos nas coisas boas que a pessoa nos fazia: seus sorrisos, seu carinho, um cafuné em seu cabelo, um domingo a tarde comendo pipoca no sofá.. só os dois… Não passa, nessa fase, o motivo do término, o por que do fim, o fim do amor.
    Nessas horas a reflexão é a melhor saída, pensar, pensar e pensar. Pedir ajuda aos amigos, família, ou até mesmo ao remédio. Não sou contra.
    Nessa fase, a insanidade e a abstinência nos faz querer ligar p ela, perdoar tudo, voltar a amar… para que? Para que a dependência volte em poucas semanas e o ciclo recomece. Isso, aí… Parabéns, Você acaba de provar que é um dependente químico!!!!
    Lógico que as coisas podem mudar, as pessoas não mudam, mas evoluem. Um termino de amor pode voltar a queimar por ambas as partes. Um queimar saudável, sem dependência, evoluído… aí, parabéns, sua dependência química se tornou um alimento saudável, digno e respeitável de qualquer academia de ginástica… Mas o mais importante é saber que se evolui por caráter próprio, não pelo outro. A pessoa muda por sí, Não pela pessoa amada. E é isso que nos faz evoluir. Pense em você, ame você, mude por você. Se não esse alimento saudável, não passará de um placebo…

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