Crônica: A pedra da Realidade

bird-nests-10-natural-honeysuckle-4Quando ele abriu os olhos já não sabia onde estava. Um feixe de luz vazava por entre as penas soltas que encobria seu rosto. Foi aí que se deu conta de que não era fantasia. Fantasias não arrancam pedaços. As penas pertenciam à sua asa esquerda e foram brutalmente arrancadas com a mesma pedrada que o derrubara do ninho alto.

Tentou levantar-se. Seu corpo já não obedecia. Estava anestesiado. Aos poucos recobrava a consciência que havia sido arrebatada pela queda.  O passarinho então se lembrou da pedra que lhe foi arremessada. Era uma pedra de realidade, que ainda carregava as digitais de quem a tinha atirado. Era de um estranho. Desconhecido.

Foi então que ele chorou. Tomado por uma dor de morte. Engolia cada lágrima como se fosse um cálice de fel que corroía toda a sua alma.  Pobre passarinho! Que só queria voar. Mas não queria voar só. Achava que quando dominasse a gravidade iria poder voar acompanhado. Trazê-lo para juntos conquistarem os céus.

Mas aquela pedra. Aquela pedrada o tirou o direito de dar o primeiro vôo. Ele estava apenas ao lado do ninho. Do mesmo ninho onde por tanto tempo ele bebeu de segurança, conforto e prazer. Era um ninho apertado, pequeno, preso entre galhos. E ele queria apenas fazer um ninho maior, escolher uma árvore mais frondosa, talvez em outra floresta.

Então aquele vôo. Aquele vôo poderia significar um convite para mostrar ao mundo que se pode chegar ao sol sem o medo de ter as asas derretidas. Era pra ser um convite…

Sem asa. Sem vôo. Sem voz. Já não podia mais cantar. Emudecido pela dor, só lhe restava escrever. Ele só conseguia sentir com as palavras. Sentia o que escrevia e escrevia para poder sentir.

Se apoiando na outra asa que restara, ele rastejou até a pedra. Puxou-a pra bem perto e então começou a fazer o seu próprio ninho, não de gravetos, mas de pedras, começando com aquela. A pedra da realidade.

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Sobre Renato Lima

Jornalista, estudante de psicologia, mochileiro e observador de comportamento.

Publicado em 03/05/2015, em Sem categoria. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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