Crônica da Felicidade Africana

Não sentimos falta daquilo que nunca tivemos. A afirmação deixa de ser um óbvio ululante quando realmente entendemos alguns

Muffin ou não Muffin ?!

significados existenciais. A busca pela felicidade é o Status Quo do pós modernismo. Ela, a busca, perambula pelas roupas de marca, o tênis da moda, o carro do ano, as promessas da cosmética (sobre tudo o efeito da negação), um bom currículo, conta bancária gorda e claro, no topo da wishlist um amor (necessariamente uma pessoa).

Então, como uma receita de bolo, melhor, uma poção mágica, juntam-se os “ingredientes” e “voilà”, eis que surge a felicidade! Bullshit! Nem em contos de fadas essa matemática é assim, tão exata. Mas a proposta desta reflexão nem se atreve a definir felicidade, mas em questionar o caminho escolhido para se chegar até lá.

Nessa caminhada, o objetivo perde espaço para o tempo. Já não basta somente alcançar a felicidade, é preciso fazê-la de forma rápida e antes do outro.  Trata-se de um troféu e todo o resto é concorrência, incluindo nós mesmos. Nos valemos de inúmeras auto-sabotagens, racionalização, compensação e o que mais a neurose permitir.

E nesse processo ocorre algo interessante, semelhante ao que acabou de acontecer neste texto, perdemos a real motivação do que queremos. Sem foco, o primeiro atalho parece o certo. A própria existência entra em xeque. E diante de um turbilhão de dúvidas e inseguranças nos apegamos à sombra (aristotélica) daquilo que desejamos. Então fingimos. Fingimos que para sermos felizes precisamos “preencher vazios”. Um vazio criado por nós mesmos, ao longo do caminho de busca.

Foi no meio da nudez africana que meus paradigmas foram assolados. Diante de uma felicidade crua, todos os meus acessórios viraram alegorias ocas. Só é possível sentir falta do que não se tem, porque do contrário estaríamos “plenos” na totalidade. Ou teríamos tudo, ava ou então não teríamos nada. E isso é interessante. No vácuo da África, encontrei felicidade, sorrisos, saciedade. Ninguém estava frustrado porque tinha caído o sinal da internet, ou porque pisaram no tênis branco. Não há disputa pela bola, porque simplesmente não há bola. Eles são donos de uma ignorância abençoada, que os enche por completo, não sobrando espaço para projeções vaidosas e supérfluas.

A dor da perda só existe quando temos a posse. Nessa instância, o sofrer é diretamente proporcional ao possuir, sejam coisas ou pessoas. Talvez a felicidade africana esteja na liberalidade de não possuir nada, nem ninguém, nem mesmo a si próprio.

 

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Publicado em 04/09/2012, em Mood. Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Estou atônita e igualmente eufórica com tamanha revelação, Renato! Coisas que só a África e um coração humilde e inquieto podem fazer por alguém… Obrigada, meu amigo, por partilhar os relatos dessa epifania!

  2. Rapá, que texto irado! Leitora conquistada.

  3. Grande texto! Belíssimas e verdadeiras palavras!

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