Narciso às avessas

Cada vez eu estou mais convencido de uma teoria própria que eu prefiro chamar de sequência lógica: “Se, não deve julgar o livro pela capa. Logo, nem tudo que parece é. E assim, algumas coisas são aquilo que não aparentam”, dessa forma cai a prática da rotulagem.

Digo isso porque nesse fim de semana ouvi uma definição interessante sobre um fenômeno mitológico que parecia ser fato concreto.

Penso que todos já ouviram falar de Narcisismo, ainda que não tenham estudado a vida do mito Narciso. O senso comum transformou em adjetivo e sinônimo para definir alguém que cultua o próprio corpo. Não acredito que se Narciso fosse vivo hoje, ele seria uma espécie de Vigoréxico. Mas a ideia geral é de alguém que investe tempo e recursos em si próprio, um egoísmo físico. Vulgo vaidade excessiva.

Porém, o buraco é mais em baixo….  A grande verdade é que Narciso odiava-se a si próprio. A imagem do reflexo na água é verdadeira, mas ao contrário de explicar uma paixão por si próprio, era uma forma que ele encontrou para acreditar na própria existência.

“A lenda grega de Narciso conta que ele era um jovem de singular beleza, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. No dia de seu nascimento, o adivinho Tirésias vaticinou que Narciso teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Indiferente aos sentimentos alheios, Narciso desprezou o amor da ninfa Eco e seu egoísmo provocou o castigo dos deuses. Ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até consumir-se”.

Na psiquiatria e particularmente na psicanálise, o termo narcisismo designa a condição mórbida do indivíduo que tem interesse exagerado pelo próprio corpo. O auto-ódio é uma explicação para atitudes de indivíduos que passam a negar sua própria existência odiando a tudo e a todos que se relacionem com a sua origem.

Esse ódio era tanto que ele achava que jamais poderia amar e ser amado, pois negava a própria existência. Mas o reflexo o fazia lembrar que ele existia!

Segundo Freud, o ódio é, cronologicamente, um sentimento bem precoce na história psíquica de cada um de nós, despertado por tudo o que é vivido como ”ruim” apenas por não se coadunar com nossos desejos egocêntricos. Nesta lógica solipsista, tudo estaria justificado – e nos adultos com fortes traços de narcisismo arcaico, as reações de fúria se manifestam intensamente como subproduto do amor-próprio ferido.

Sob essa ótica pode-se obter um outro entendimento do trecho abaixo que relata o conflito de Narciso, segundo a mitologia.

Narciso debruçou sobre a fonte para banhar-se e viu, surpreso, uma bela figura que o olhava de dentro da fonte. “Com certeza é algum espírito das águas que habita esta fonte. E como é belo!”, disse, admirando os olhos brilhantes, os cabelos anelados como os de Apolo, o rosto oval e o pescoço de marfim do ser. Apaixonou-se pelo aspecto saudável e pela beleza daquele ser que, de dentro da fonte, retribuía o seu olhar.

Não podia mais se conter. Baixou o rosto para beijar o ser, e enfiou os braços na fonte para abraça-lo. Porém, ao contato de seus braços com a água da fonte, o ser sumiu para voltar depois de alguns instantes, tão belo quanto antes.

– Porque me desprezas, bela criatura? E por que foges ao meu contato? Meu rosto não deve causar-te repulsa, pois as ninfas me amam, e tu mesmo não me olhas com indiferença. Quando sorrio, também tu sorris, e responde com acenos aos meus acenos. Mas quando estendo os braços, fazes o mesmo para então sumires ao meu contato.

Suas lágrimas caíram na água, turvando a imagem. E, ao vê-la partir, Narciso exclamou:

– Fica, peço-te, fica! Se não posso tocar-te, deixe-me pelo menos admirar-te.

Assim Narciso ficou por dias a admirar sua própria imagem na fonte, esquecido de alimento e de água, seu corpo definhando. As cores e o vigor deixaram seu corpo, e quando ele gritava “Ai, ai”, Eco respondia com as mesmas palavras. Assim o jovem morreu”.

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Sobre Renato Lima

Jornalista, estudante de psicologia, mochileiro e observador de comportamento.

Publicado em 01/03/2010, em Mood e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Não consigo criar uma opinião sobre isso que você escreveu. Há dias penso nisso e não consigo criar um raciocínio que me convença… Acho que vou ter que estudar mais porque eu nunca tinha visto as coisas com essa visão huahuahuahua

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